quarta-feira, 5 de maio de 2010

Cidade

Colocar um nome nas coisas seria colocar etiquetas com seus preços. A poesia das cidades não classifica as coisas. É o poema da ausência de artigos, a polidez do frágil, cemitério de céus sem nuvens. Venha ver os pincéis invisíveis formarem seus haikais de propagandas. Venha ser visto pela televisão (espelho invertido), venha ver a instabilidade. Venha ver a história jogar pela vidraça todas as suas nuvens de chumbo.

Cabeças humanas com etiquetas passeiam expandidas por espaços absurdamente vermelhos. O sonho coletivo é a cidade, o filme absoluto, a grande partitura.

Vem, vem jogar areia no meu passado. Vem, vamos mudar todas as placas de trânsito do lugar. São as nossas quatro asas contra o resto do mundo, são quatro asas nossas nestas esquinas de pedra. E você meu amor, se despe toda vestida de engarrafamento, acelera.

As fichas se acabaram, os orelhões dos deuses estão ocupados. Cidade das auroras em slow-motion; cidade dos olhos de aquário. A cidade é a grande igreja com suas chuvas de janelas escorrendo pelos galhos das tuas mãos. Flores nascem dos bueiros das calçadas rolantes. Andamos pelo resto da vida nesta procissão desiludida.

Para os parques do amanhecer caminhamos desde sempre. Pisamos por ilhas chuvosas, todas são luzes novas nos olhos velhos. Naquela avenida estará minha estátua desde sempre. Nenhum anjo irá nos corromper.

sábado, 24 de abril de 2010

Careless love (AmorAmerica)


Repare nessa estrada aberta em frente da tua tela: peixes pulam enquanto as nuvens purpúreas passam. Asfaltos estrebucham pétalas na nobreza dos submundos. E William Borroughs? O Henrique IV das latrinas proclama seus cowboys eternos de fulgazes parangolés. Balançamos compulsivamente nossas bandeiras. Tele-visões fora do ar, cacos de índios urbanos como nós nas procissões das discotecas; desiludidos e rádio ativos. A ilha dentro da ilha. E o que acontecem com as musas quando elas apodrecem? Argamassas siderais de pequenos dilúvios de gasolina. E seria a Amazon a última tentativa de invadir Manaus, ou teria o White Stripes feito melhor ao tocar ao vivo na Ópera Amazonense pela MTV? Enquanto isso Bob Dykan troveja: "Yippie, I'm a poet, and I know it. Hope I don't blow it." Parabólicas de Basquiat, rinocerontes grafitam muros invisíveis, falsos diamantes são dilacerados pelos areoportos de pânico. O não dito sempre arderá muito mais. Momas e CNNs aplaudem guardanapos pseudo-rabiscados em Guernicas patrocinadas. Mas, e onde você estava quando as torres choraram? Enquanto isso Hendrix expande sua dissonância em ruídos verdadeiros: calemo-nos para ouvir o único silêncio que importa; Hendrix, Hendrix.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

ana c.














queria nadar nas piscinas em que os semideuses

fumam pelos muros despedaçados do espetáculo.

a rua bem se sabe

é uma pluma de chumbo.

queria saber misturar gertrude stein com billy the kid,

mas caio aqui mesmo nessa auto-estrada,

nessa via sem heróis de plástico

e sem bandeiras para hastear.

vou dar minha orelha a um cego

e caminhar pelo lado sombrio da calçada.


tento colher os poemas despencados pelo chão.

PRÓXIMO SÁBADO NO CENTRO HÉLIO OITICICA 17 HRS

segunda-feira, 5 de abril de 2010

sexta-feira, 2 de abril de 2010

David Lynch







Somente através dos dinossauros digitais é que Laura Dern consegue invadir as pulsões de mar de Fellini. Frederico: a multidão deseja a sua capa. Lábios verdes e gramas vermelhas nos esclarecem que os floristas são só para disfarçar.

Cobre-se o céu com texturas e depois neste mise-èn-scene as cores impregnadas de abstração vêm atrás. Na super-highway se chega a Roma com um passo. Todas as estradas sujas são deixadas para trás. Elevadores caem e caem e caem.

Escuros telefones para nos clarificar, os jardins de dança correm com e até você. Os felizes acidentes provocam esta sinfonia de ventiladores. Espelhos limpíssimos de sol nos salvam de lâmpada em lâmpada. Todas as musas são canibais.

Os peixes da tela rastejam. Aeroportos sobem para as estrelas. Helicópteros cortam tua cabeça de suave desastre. Muito melhor é ser engolido por um outdoor e renascer na outdor do instante oceânico.

Algo agora se rompeu e se rompe por de trás dessa criança uivando baixinho na projeção. Mais solúveis do que nunca os peixes invadem o cinema. Somos todos peixes esculpidos por relógios de silêncio. Seja muitíssimo bem-vindo ao deserto do real.

quarta-feira, 17 de março de 2010

Para Heath Ledger


Why so serious? Let's put a smile on that face.

O cotidiano está sempre atrasado. Coloque seus óculos de pólvora e parta para os fios do real sensível. Frature a ilusão. No avesso tudo pode se articular. Na fauna urbana dos monstros encantados. No cine-sensação do mundo esvoaçante e transitório das vísceras do próprio herói. Dos gregos e suas muralhas supostamente imunes ao tempo.

Queria julgamentos da história, Queria o fim do sono. Queria devorar as musas, mas agora o civilizado nu suspende suas mãos pegando fogo no cinema da rua. Nada é concreto até que desapareça.

Empilhar relíquias. A Multidão violenta da televisão flutua em cima de uma pedra com o globo ocular no universo. Na paisagem da boa digestão o poema é o transe. O poema é o transe. Jokerman, na gramática do equilíbrio o véu do Éden pode ser dinamitado. O rei da velocidade em um mundo teleguiado é também a máquina de fraquezas. Slides simultâneos de trânsitos. Para uma salvação sem santos - o verbo visual.

Mas a providência messiânica das capas de jornal não contém a fúria da solidão das galáxias. Queria que a paisagem fugisse de sua própria escravidão. Quebre a garrafa e derreta espelho, faz tuas colagens de presentes. Max Ernst já nos deixou bem claro que "não é a cola que faz a colagem". Mesmo assim você ainda fez muito bem em tentar teu suspiro oceânico na Tropicália do dilacerado.

O cotidiano está sempre atrasado. Nada é concreto até que desapareça.