quinta-feira, 25 de maio de 2017

Texto atualíssimo




O Caos nunca morreu. Bloco intacto e primordial, único monstro digno de adoração, inerte e espontâneo, mais ultravioleta do que qualquer mitologia (como as sombras à Babilônia), a original e indiferenciada unidade-do-ser ainda resplandece, imperturbável como as flâmulas negras frenética e perpetuamente embriagada dos Assassinos (Hassasin ou Hassisin; ‘consumidores de haxixe’). O caos é anterior a todos os princípios de ordem e entropia, não é nem um deus nem uma larva, seus desejos primais englobam e definem toda coreografia possível, todos éteres e flogísticos sem sentido algum: suas máscaras, como nuvens, são cristalizações da sua própria ausência de rosto. Tudo na natureza, inclusive a consciência, é perfeitamente real: não há absolutamente nada com o que se preocupar. As correntes da Lei não foram apenas quebradas, elas nunca existiram. Demônios nunca vigiaram as estrelas, o Império nunca começou, Eros nunca deixou a barba crescer. Não. Ouça, foi isso que aconteceu: eles mentiram, venderam-lhe ideias de bem e mal, infundiram-lhe a desconfiança de seu próprio corpo e a vergonha pela sua condição de profeta do caos, inventaram palavras de nojo para seu amor molecular, hipnotizaram-no com a falta de atenção, entediaram-no com a civilização e todas as suas emoções mesquinhas. Não há transformação, revolução, luta, caminho. Você já é o monarca de sua própria pele – sua liberdade inviolável espera ser completa apenas pelo amor de outros monarcas: uma política se sonho, urgente como o azul do céu. Para lograr abrir mão de todos os acentos e hesitações da história ilusória, é preciso evocar a economia de uma Idade da Pedra lendária – xamãs e não padres, bardos e não senhores, caçadores e não policiais, coletores paleoliticamente preguiçosos, gentis como sangue, que ficam nus para simbolizar algo ou se pintam como pássaros, equilibrados sobre a onda da presença explícita, o agora-sempre atemporal. [...] Avatares do caos agem com espiões, sabotadores, criminosos do amor louco, nem generosos nem egoístas, acessíveis como crianças, semelhantes a bárbaros, perseguidos por obsessões, desempregados, sexualmente perturbados, anjos terríveis, espelhos para a contemplação, olhos que lembram flores, piratas de todos os signos e sentidos. Aqui estamos, engatinhando pelas frestas entres as paredes da Igreja, do Estado, da Escola e da Empresa, todos os monolitos paranoicos. Arrancados da tribo pela nostalgia selvagem, escavamos em busca de mundos perdidos, bombas imaginárias. A última proeza possível é aquela que define a própria percepção, um invisível cordão de ouro que nos conecta: dança ilegal pelos corredores do tribunal.


[1]





[1] (Hakim-Bey, 2003: 5-6). 

terça-feira, 4 de abril de 2017

A quem interessar possa, aqui o link da auspiciosa resenha que saiu hoje sobre o "Máquina de fazer mar" escrita pelo Sérgio Tavares de "A nova crítica". Muito bom saber que ainda existe crítica séria no país, para além da efeméride dos jornais e não restrita ao claustro da área acadêmica https://anovacritica.wordpress.com/2017/04/03/e-a-cidade-que-nos-sonha/

domingo, 26 de março de 2017

Máquina de fazer mar – AGC – 2016, 7Letras


Sugar o açúcar e lhe devolver o sugar
Sugar o açúcar e lhe devolver o amargar
De sugar a sugar
Do açúcar ao sal do mar

























As cascas das palavras
O sol da largura de um pé humano

O mar aberto vigora em tudo o que brilha
– que sabe brilhar sem e para além das lantejoulas

São os cartazes que sustentam o ar
Um soco de sol no rosto de quem chove

Uma sombra líquida a nascer no oceano invertido de seu ventre
Mínimos silêncios demoram para se fazerem verbo

Alguns navios eram mesmo ancorados no espaço

Amantes inexatos flutuavam na água,
radiantes cadáveres fingidos se equilibravam
em mais um verão inventado;
dentro de uma voragem portátil a se navegar

Eram eles: arqueólogos do instante, argonautas
da falta, escafandristas
do presente, cosmonautas
do desejo

A mais abissal imensidão de um mar não encerraria
sua mais sólida profundeza:
seu precipício não mais pararia de se renovar;
o oceano não seria fim nem princípio,
era meio

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Acaba de ser publicado na Germina (Revista Contemporânea de Literatura & Arte) um poema meu chamado "A última ciência da noite", que escrevi em torno de "O poema contínuo", do poeta português Herberto Helder; segue aqui o link: http://www.germinaliteratura.com.br/2016/augusto_guimaraens_cavalcanti.htm

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Última chamada para o lançamento do “Máquina de fazer mar". Estão todos convidados a aparecerem por lá na 7Letras em Ipanema das 18 e meia às 22 horas – endereço: Visconde de Pirajá, 580, loja 320. (Galeria Vitrine de Ipanema, ao lado da Livraria da Travessa). Ano que vem pretendo lançar o livro em SP e BH, enfim, hoje é o dia.

domingo, 4 de dezembro de 2016

Os cartazes sustentam o ar
A nebulosa dos olhos faísca na gramática da noite
Um mar saído do éter da eternidade transborda
seus sonhos de naufrágios; no escuro é possível brilhar mais

Os espelhos são os maiores responsáveis
pelo nascimento do dia
A música vem de dentro;
o mar não deságua em trevas

Densos espelhos captam mares
de outros meridianos, céus esvaídos por lunetas,
estrelas perdidas pelas calçadas

O éter do dia é obra da noite:
a claridade que transtorna a tessitura do escuro,
a noite refaz a aurora em desassombro

Objetos transbordam suas brechas,
os nomes quase nunca palpáveis,
o sangue circula sem ninguém precisar ordenar

O mar assiste ao deschorar das coisas:
melancólicos trópicos a ecoar e escoar
nos limites do mundo, o mar
sem fundo, o mar
dentro do mar

Sugar o açúcar e lhe devolver o sugar
Sugar o açúcar e lhe devolver o amargo
De sugar a sugar
Do açúcar ao sal do mar

("Máquina de fazer mar" – 2016 – AGC)


E este chão verbal que insiste em não desabar
para os pés que o inventam na noite violentada
por sapatos que pisam e a repisam
a compor esta enorme estrela feita de escombros

As mãos queimam quanto maior a ausência
quanto mais os relógios de pulso tentam cronometrar
o aflito movimento das coisas

(Melhor seria esperar que os objetos saltassem e escapassem de suas formas frias...seria quase como enterrar um poema ou colocá-lo debaixo de uma pedra para deixar que as palavras úmidas de grito quarassem no sol da terra)

A palavra é tão frágil quanto a vida
e em seu seio todas as cidades são azuis

A maior luta corporal é feita da batalha
entre os nomes e os objetos

A maior luta corporal das palavras
é feita do sangue dos dicionários

O tempo das palavras tem um corpo árido
de um fogo que brilha até no fundo do mar

O corpo é um traidor de imagens


("Máquina de fazer mar" – 2016 – AGC)

Poema que escrevi há cerca de 6 anos atrás para o Portal Literal (convidado pelo Ramon Nunes Mello), inspirado e contaminado pelo livro mais experimental do poeta maranhense, "A luta corporal" (1954),em ocasião dos 80 anos do Ferreira Gullar: