quarta-feira, 8 de novembro de 2017

O PRIMEIRO MAPA DO MUNDO

A imobilidade movente do mar,
paisagens recém traçadas pelo vento
Ângulos habitáveis,
estrelas que sangram para brilhar

Corpos verbais e verbos de carne,
objetos ainda não cicatrizados por seus nomes
A pluma que corta,
o deserto calculado de vazio

A falsa distância entre o diamante e o carvão,
traços sinuosos que o mar apaga
pequenos cadáveres da memória,
corações ligados por cordas

– Raras são as âncoras que conseguem fincar suas asas no ar, poucos os móbiles perpétuos a flutuar

Palavras sem dicionários furam o véu do real,
um novo diamante é arrancado do abismo,
flores radioativas brilham com um estranho rigor

A pedra trabalhada como se fosse carne,
a menor rocha para a maior pluma,
a máscara que não se deixa domesticar

O azul arde nas bordas,
num tatear de nomes perdidos e línguas
sem asas
O peso flutua e a pluma pesa,
as placas pedem desvio

A cartografia de seus passos contém as origens da tempestade
Seu peito possui barulho de mar
Seus lábios carregam a arte de dançar até a incandescência
da dúvida

Pela chuva contida em sua face de sol;
letreiros luminosos anunciam a primavera

– O mar se estica de ponta a ponta e encontra sua medida;
o mar sempre recomeça; o mar escreve sempre no plural


["O primeiro mapa do mundo" In: Máquina de fazer mar, 7Letras, 2016, AGC]


quinta-feira, 19 de outubro de 2017


Os poetas escrevem para os poetas. São os poetas que prestam homenagens ao seu próprio trabalho e todo esse mundo se parece bastante com qualquer outro dos tantos mundos especializados e herméticos que dividem a sociedade contemporânea. Os enxadristas consideram o xadrez como o ápice da criação humana, têm suas hierarquias, falam de Capablanca como os poetas falam de Mallarmé e, mutuamente, prestam-se todas as homenagens. Mas o xadrez é um jogo, enquanto que a poesia é algo mais sério, e aquilo que resulta simpático nos enxadristas, nos poetas é sinal de uma mesquinhez imperdoável. Os jogadores de xadrez não têm a pretensão a um papel tão universal, e o que se pode até lhes perdoar, nos poetas se torna imperdoável. Em consequência desse isolamento tudo incha e mesmo poetas medíocres inflam-se de modo apocalíptico, e probleminhas fúteis ganham uma importância estonteante. Somente uma cegueira voluntária pode explicar o inaudito simplismo com que se protegem os poetas (pessoas em geral não imbecis, mas ingênuas) quando se aborda a sua arte. A primeira consequência desse isolamento social dos poetas é que o mundo poético todo se infla, e mesmo os criadores medíocres alcançam dimensões apocalípticas e, pelo mesmo motivo, problemas de pouca importância ganham uma transcendência que assusta. [...]. O estilo se desumaniza; o poeta não toma como ponto de partida a sensibilidade do homem comum, mas a de outro poeta, uma sensibilidade ‘profissional’, e, entre os profissionais, se cria uma linguagem tão inacessível quanto a dos outros dialetos técnicos; e, subindo uns sobre os outros, formam uma pirâmide cuja ponta se perde no céu, enquanto nós ficamos embaixo um tanto confundidos. Mas o mais importante é que todos eles se tornam escravos de seu instrumento, porque essa forma é já tão rígida e precisa, sagrada e consagrada, que deixa de ser um meio de expressão; e podemos definir o poeta profissional como um ser que não pode expressar a si mesmo porque tem de expressar os versos. [...]. Os poetas ainda não compreenderam que não se pode falar de poesia em tom poético e por isso suas revistas estão cheias de poetizações sobre a poesia, quase sempre horripilantes por seu estéril malabarismo verbal. São a esses pecados mortais contra o estilo que os levam o temor que sentem da realidade e a necessidade de encontrar, a todo custo, uma afirmação do seu esmorecido prestígio. [...]. Não se dão conta de que se as escolas não ensinassem às crianças o culto dos poetas, em suas tristes e tão formais aulas de língua nacional, e se esse culto não se mantivesse por inércia entre os adultos, ninguém, além de uns poucos aficionados, se interessaria por eles. Não querem ver que a suposta admiração ao canto versificado é, em realidade, o resultado de muitos fatores como o interesse esportivo (porque assistimos a um recital poético do mesmo modo que a uma missa – sem compreendê-lo – e apenas cumprindo um ato de presença frente a um rito; e porque nos interessa a corrida dos poetas em direção à glória como nos interessam as corridas de cavalos); não, esse complicado processo da reação das multidões se reduz para eles à fórmula: ‘o verso encanta porque é belo...’. Para os poetas tudo não passa de: o cantor canta, e o ouvinte, encantado, ouve. [...]. Porém fiquem tranquilos: nada nunca mudará nos poetas. E não tenham a ilusão de que em face dessas forças coletivas que falsificam nossa percepção individual, eles vão mostrar um dia alguma vontade de resistência – para que ao menos a arte não fosse mentira e cerimonial, mas sim um encontro verdadeiro do homem com o homem. Não, esses monges preferem se ajoelhar. Monges? Até a religião morre no instante em que se transforma em rito. 


[Contra os poetas – Witold Gombrowicz, 1947].

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Entre o abismo e o abrigo, casa é
uma pálpebra que treme

O rumor de suas ondas se mantém presente
pelas conchas dos ouvidos de quem pensa que a habita

Uma casa escondida num cofre,
uma casa atada ao naufrágio de qualquer solução,
a Rua do Mundo presa na vulva de sua Casa;
uma casa em permanente expansão

A casa e sua geometria labiríntica,
a casa que não abriga,
a cidade e suas infindáveis serpentes de concreto,
a casa suporta o mundo e suas inesgotáveis chuvas oblíquas

Casas sonolentas assistem ao estranho vagar dos dias,
casas mal vividas,
margens de despidas engrenagens,
máquinas eficientes de viver

A casa respira e se distende
rumo à ampliação de sua simetria
A casa não se limita,
o crescimento interno da casa não se deixa sentir

Casas aladas são esboços de um coração que ainda baterá
A casa concentrada atravessa a casa expansiva
A casa e seus escombros rejuvenescem os homens

Nas páginas espumantes da casa-corpo,
toda sombra guarda uma palavra;
ali, são as pernas que carregam seus escombros

A forma trágica de uma simples maçã preenche os silêncios da casa
Um sonhador desperta os móveis adormecidos e a casa flutua
entre um equilíbrio íntimo de paredes e brilhos renovados

Corredores se ampliam
em um estranho murmúrio de sol
Flores de cicutas enfeitam os vasos
O amor adoeceu sua casa,
o amor entupiu sua pia

Aqui, esta casa se afunda pelo meio dos cabelos e
a vida mente diante das estruturas
Luas mortas brilham no firmamento da razão

As ruínas carecem de método,
pássaros alheios atravessam continentes errantes
A casa nos sonha
Os mapas transbordam

É a cidade que nos imagina
quando caminhamos
mais estranhos do que o paraíso,
mais remotos do que o espaço,
desentranhados dos velhos dicionários

Também o relâmpago nos olha
quando acompanhamos os ingênuos com os seus jornais,
a ciência experimental dos solitários,
a ciência lírica dos desenganados

Na geometria do olho cada palavra contêm um diminuto oceano,
pela clausura da pele brilha a metáfora dissonante,
para além de todas as casas em que alguém já sonhou habitar
– A cidade é toda ela a casa do homem

É a cidade que nos sonha


("Casa" in: Máquina de fazer mar, 2016, 7Letras, AGC)


quinta-feira, 31 de agosto de 2017

É com satisfação que acabo de publicar um artigo na revista Plural da USP sobre o Flávio de Carvalho e seu livro mais etnográfico "A origem animal de deus". A quem interessar possa, segue aqui o link: https://www.revistas.usp.br/plural/article/view/122540/133161

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Quando um deus morre, a multidão se pergunta:
para que medir a cidade com passos?
Os pés não têm memórias?

Distraidamente um homem sem sombras carrega
suas paisagens remendadas no bolso, as mastigará
nas primeiras horas de um janeiro qualquer

Homem atravessado por um céu sem nuvens,
levará na sacola toda uma coleção de paisagens subtraídas

Nenhum dia será belo como o sol que se apagará
nos horizontes dos aeroportos e em seguida virá se inflamar
na pista de pouso dos corredores e dos prédios

No dia em que o teto cair qual e tal a maçã de Newton,
aí sim brilharão com a maior das intensidades translúcidas
os corpos translúdicos e seus corações cicatrizados

Um dia, quando este homem estiver dourado de cansaço,
tomará tanto sol que ficará todo iluminado por dentro
e então verá o outro ocidente de haikais
que os barcos vêm trazendo

Aí então, o balé improvável dos astronautas
será composto por formas habitáveis e
pelo sangue coagulado de continentes vicários
– o pós espanto da pós poesia do pós contemporâneo

E os deuses não mais se cansarão de escrever o real

["O homem sem sombra": Máquina de fazer mar (2016, 7Letras, AGC)]

O poeta não só enxerga, como vê a construção
junto de quem constrói, tudo na mais maré mais alta
de oceanos sem margens

Tudo pela clausura móvel da pele,
pelo reflexo de um âmbar, para que a paisagem escape
de sua própria escravidão

Pelo rigor na experimentação e pela experimentação no rigor;
construções em ruínas de construções
– like a slow burn

O chão sustenta o tapete, que fixa
a cadeira, que sustenta os pés
Os dicionários são incômodos,
os nomes provisórios

O voo de um pássaro não se prende a moldura alguma

_ quase nunca o calendário cardíaco corresponde ao calendário solar. o corpo é a medida da concretude das coisas, mas, por outro lado, é na mente que as ideias fluem; daí quem sabe, algumas ilusões geográficas _

É preciso nascer para provocar cortes nas escrituras do passado
Nascer junto com os mortos, escrever e ser escrito

Um dia, a localização poética ainda haverá de ampliar
a localização geográfica

["Slow burn": Máquina de fazer mar (2016, 7Letras, AGC)]

terça-feira, 22 de agosto de 2017

Do corpo só irá ficar o arrepio – ela dizia –, enquanto
era no contrapelo de sua pele que cresciam os tigres,
seus tigres todos à espreita como um câncer bom

Em sua sala de chuva ela fazia nascer as frutas
antes de qualquer chuva, paisagens surgiam
de suas sombras rumo à melancolia de outro azul

Medusa urbana trazia nos olhos um laboratório
de estranhezas, seus lábios de chumbo derretido
espelhavam uma estranha simetria de luzes

Tudo que não era treva fulgurava
no far west de seu tédio,
por debaixo da sombra de algum deus

Pequenos crimes de amor e algumas ilhas turvas
atravessavam as janelas anônimas dos olhos

A glacialidade bruta de um beijo dissolvia os mapas e
os ponteiros grudados na epiderme das paredes

A geografia quântica de suas unhas arranhava
e ampliava o sol da meia-noite

Flores eram germinadas por suor e susto,
o céu ainda tinha a cor das suas unhas

Era preciso ter a sede dos afogados,
ser invadido por este azul, pela melancolia do azul

Quanto mais se vivia, menos se morria
E todo o resto era literatura

("A melancolia do azul" in: Máquina de fazer mar, 7Letras, 2016; AGC)