segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

Acaba de ser publicado na revista de pós-graduação do PACC/UFRJ um artigo que é um desdobramento da minha dissertação sobre rock no Brasil defendida sob orientação de Santuza Cambraia Naves em abril de 2010, sendo, também, uma homenagem à memória de Santuza. A quem interessar possa, aqui segue o link: 

http://revistazcultural.pacc.ufrj.br/arnaldo-antunes-cazuza-e-o-rock-no-brasil/


quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

Mariana \ Brumadinho


Não de vento os formei, mas do meu barro.
Não lhes dei sentimento, mas meu sangue.
Acolhe-os, pois, ainda que sejam turvo
rio a cruzar as terras que erigiste
no teu sonho maior, mesmo que sejam
somente um vago eco, um arfar penoso
de barro, solidão, de cinza e sangue.

(...)

É como um grande soluço:
Mariana.

São velhas casas pedindo
um pouco de amanhecer.
São velhas casas sonhando...
São velhas casas sonhando...
Parece que vão morrer.

É como um grande soluço:
Mariana.

Navegas por entre luzes
que te recordam, na sombra
dos teus olhos,
um passado dolorido,
um passado que não viste
e que entretanto é bem teu.
Carregas na carne aflita
uma carne que morreu.

E é como um grande soluço
de mil torres,
de paisagens exaustas,
um soluço
sufocado:
Mariana.



Alphonsus de Guimaraens Filho, "Nostalgia dos Anjos" (1939-1944) 






A história da arte


terça-feira, 6 de novembro de 2018

as noites em que você luta melhor
são
quando todas as armas estão apontadas
para você,
quando todas as vozes
lançam seus insultos
enquanto o sonho está sendo
estrangulado.

as noites em que você luta melhor
são
quando a razão leva
um chute no
estômago,
quando as carruagens da
melancolia
te
cercam.

as noites em que você luta melhor
são
quando o riso dos idiotas
preenche o
ar,
quando o beijo da morte é
confundido com
o amor.

as noites em que você luta melhor
são
quando o jogo é
arranjado,
quando a multidão exige
o seu
sangue.

as noites em que você luta melhor
são
numa noite como
essa
quando você expulsa
do teu cérebro
mil ratos sinistros,
quando você se rebela contra o
impossível,
quando você se irmana
dessa terna
alegria e

segue em frente

(Charles Bukowski - 
"Indiferente", em "Maldito Deus arrancando esses poemas de minha cabeça")

segunda-feira, 24 de setembro de 2018

Não como o gigante bronzeado de grega fama,
Com pernas abertas e conquistadoras a abarcar a terra
Aqui nos nossos portões banhados pelo mar e dourados pelo sol, se erguerá
Uma mulher poderosa, com uma tocha cuja chama
É o relâmpago aprisionado e seu nome
Mãe dos Exílios. Do farol de sua mão
Brilha um acolhedor abraço universal; 
Os seus suaves olhos comandam 
o porto unido por pontes que enquadram cidades gêmeas.
“Mantenham antigas terras sua pompa histórica!” grita ela
Com lábios silenciosos "Dai-me os seus fatigados, 
os seus pobres,as suas massas encurraladas 
ansiosas por respirar liberdade,
O miserável refugo das suas costas apinhadas.
Mandai-me os sem abrigo, 
os arremessados pelas tempestades,
Pois eu ergo o meu farol junto ao portal dourado!"

Emma Lazarus, 1883, “The New Colossus” 


quarta-feira, 12 de setembro de 2018


Se a solenidade, a postura douta, as estátuas e as ruas com sobrenomes fossem proporcionadas ao pensar profundo, quão pouco dessa estofa haveria: o viver não precisaria de tanta paciência nem abundaria tanta tentação de uma vileza em troca de celebridade. Por enquanto, a profusão de estátuas, aniversários, volumes de história, sobrenomes de esquina e escritos da segura virtude fazem muita suspeita essa sociedade da perdoável pobre gente que somos todos; os sobressalta notar tanto trabalho dos homens por parecerem bons, numa civilização tão apaixonada pelas fechaduras Yale e pelos bons modos, armadilha para adoecer vítimas. Cidades de melhor gosto teriam ruas chamadas de Chuva do Despertar, o Caminho Orvalho cruzado pela avenida do ‘Homem Não Idêntico’. (...). Cumpriu-se a beleza da não História; foram suprimidas as homenagens a capitães, generais, advogados, governadores, nas quais não se recorda o nome de nenhuma magnífica obra desnorteada de vida; (...) Praças e parques com os nomes das máximas vivências humanas, sem sobrenomes; (…). Foram deportadas todas as estátuas que enlutam as praças, e seu lugar foi ocupado pelas melhores flores; apenas se substituiu a de José de San Martín por uma simbolização do ‘Dar e Partir’. Enfim, na cidade presentista algo fez o tempo não transcorrente, como a história, e sim um Presente fluído, com memória só do que volta cotidianamente a ser, não do que não se repete, como os aniversários. Por isso o almanaque da cidade tem 365 dias de um só nome: ‘Hoje’, e a avenida principal se chama também ‘Hoje’. (...) A cidade se deslocou sobre seu eixo girando seu perímetro alguns centímetros. (...) De volta à estância ‘O Romance’, davam-se os bons-dias. Mas a Eterna voltou à noite para Buenos Aires, e eu sei para quê. Para atribuir às duas Praças Centrais os nomes da ‘Cidade sem Morte’ e ‘Dos Homens Não Idênticos’; essas denominações se completavam na ligação de uma Praça com a outra. (O não idêntico está isento de morte.)
(Macedonio Fernández, Museu do romance da Eterna, 1967).

terça-feira, 14 de agosto de 2018

COMO EU ESCREVO

Foi publicada hoje uma entrevista sobre meu processo de escrita para o projeto “COMO EU ESCREVO”. Nela, conto um pouco do que mudou desde o meu primeiro livro (Poemas para se ler ao meio-dia, 2006) até o último (Máquina de fazer mar, 2016). A quem interessar possa, aqui segue o link: https://comoeuescrevo.com/augusto-guimaraens-cavalcanti/