terça-feira, 14 de agosto de 2018

COMO EU ESCREVO

Foi publicada hoje uma entrevista sobre meu processo de escrita para o projeto “COMO EU ESCREVO”. Nela, conto um pouco do que mudou desde o meu primeiro livro (Poemas para se ler ao meio-dia, 2006) até o último (Máquina de fazer mar, 2016). A quem interessar possa, aqui segue o link: https://comoeuescrevo.com/augusto-guimaraens-cavalcanti/

segunda-feira, 6 de agosto de 2018

RUÍDO MANIFESTO

Aqui, quatro poemas inéditos meus que foram publicados hoje na Ruído Manifesto; a quem interessar possa, segue o link: http://ruidomanifesto.org/quatro-poemas-de-augusto-guimaraens-cavalcanti/

terça-feira, 15 de maio de 2018

Rua do Mar

Aqui, o poema inédito que escrevi para se transformar numa instalação e em 1 vestido-poema na abertura da Anna Vic.









quarta-feira, 8 de novembro de 2017

O PRIMEIRO MAPA DO MUNDO

A imobilidade movente do mar,
paisagens recém traçadas pelo vento
Ângulos habitáveis,
estrelas que sangram para brilhar

Corpos verbais e verbos de carne,
objetos ainda não cicatrizados por seus nomes
A pluma que corta,
o deserto calculado de vazio

A falsa distância entre o diamante e o carvão,
traços sinuosos que o mar apaga
pequenos cadáveres da memória,
corações ligados por cordas

– Raras são as âncoras que conseguem fincar suas asas no ar, poucos os móbiles perpétuos a flutuar

Palavras sem dicionários furam o véu do real,
um novo diamante é arrancado do abismo,
flores radioativas brilham com um estranho rigor

A pedra trabalhada como se fosse carne,
a menor rocha para a maior pluma,
a máscara que não se deixa domesticar

O azul arde nas bordas,
num tatear de nomes perdidos e línguas
sem asas
O peso flutua e a pluma pesa,
as placas pedem desvio

A cartografia de seus passos contém as origens da tempestade
Seu peito possui barulho de mar
Seus lábios carregam a arte de dançar até a incandescência
da dúvida

Pela chuva contida em sua face de sol;
letreiros luminosos anunciam a primavera

– O mar se estica de ponta a ponta e encontra sua medida;
o mar sempre recomeça; o mar escreve sempre no plural


["O primeiro mapa do mundo" In: Máquina de fazer mar, 7Letras, 2016, AGC]


quinta-feira, 19 de outubro de 2017


Os poetas escrevem para os poetas. São os poetas que prestam homenagens ao seu próprio trabalho e todo esse mundo se parece bastante com qualquer outro dos tantos mundos especializados e herméticos que dividem a sociedade contemporânea. Os enxadristas consideram o xadrez como o ápice da criação humana, têm suas hierarquias, falam de Capablanca como os poetas falam de Mallarmé e, mutuamente, prestam-se todas as homenagens. Mas o xadrez é um jogo, enquanto que a poesia é algo mais sério, e aquilo que resulta simpático nos enxadristas, nos poetas é sinal de uma mesquinhez imperdoável. Os jogadores de xadrez não têm a pretensão a um papel tão universal, e o que se pode até lhes perdoar, nos poetas se torna imperdoável. Em consequência desse isolamento tudo incha e mesmo poetas medíocres inflam-se de modo apocalíptico, e probleminhas fúteis ganham uma importância estonteante. Somente uma cegueira voluntária pode explicar o inaudito simplismo com que se protegem os poetas (pessoas em geral não imbecis, mas ingênuas) quando se aborda a sua arte. A primeira consequência desse isolamento social dos poetas é que o mundo poético todo se infla, e mesmo os criadores medíocres alcançam dimensões apocalípticas e, pelo mesmo motivo, problemas de pouca importância ganham uma transcendência que assusta. [...]. O estilo se desumaniza; o poeta não toma como ponto de partida a sensibilidade do homem comum, mas a de outro poeta, uma sensibilidade ‘profissional’, e, entre os profissionais, se cria uma linguagem tão inacessível quanto a dos outros dialetos técnicos; e, subindo uns sobre os outros, formam uma pirâmide cuja ponta se perde no céu, enquanto nós ficamos embaixo um tanto confundidos. Mas o mais importante é que todos eles se tornam escravos de seu instrumento, porque essa forma é já tão rígida e precisa, sagrada e consagrada, que deixa de ser um meio de expressão; e podemos definir o poeta profissional como um ser que não pode expressar a si mesmo porque tem de expressar os versos. [...]. Os poetas ainda não compreenderam que não se pode falar de poesia em tom poético e por isso suas revistas estão cheias de poetizações sobre a poesia, quase sempre horripilantes por seu estéril malabarismo verbal. São a esses pecados mortais contra o estilo que os levam o temor que sentem da realidade e a necessidade de encontrar, a todo custo, uma afirmação do seu esmorecido prestígio. [...]. Não se dão conta de que se as escolas não ensinassem às crianças o culto dos poetas, em suas tristes e tão formais aulas de língua nacional, e se esse culto não se mantivesse por inércia entre os adultos, ninguém, além de uns poucos aficionados, se interessaria por eles. Não querem ver que a suposta admiração ao canto versificado é, em realidade, o resultado de muitos fatores como o interesse esportivo (porque assistimos a um recital poético do mesmo modo que a uma missa – sem compreendê-lo – e apenas cumprindo um ato de presença frente a um rito; e porque nos interessa a corrida dos poetas em direção à glória como nos interessam as corridas de cavalos); não, esse complicado processo da reação das multidões se reduz para eles à fórmula: ‘o verso encanta porque é belo...’. Para os poetas tudo não passa de: o cantor canta, e o ouvinte, encantado, ouve. [...]. Porém fiquem tranquilos: nada nunca mudará nos poetas. E não tenham a ilusão de que em face dessas forças coletivas que falsificam nossa percepção individual, eles vão mostrar um dia alguma vontade de resistência – para que ao menos a arte não fosse mentira e cerimonial, mas sim um encontro verdadeiro do homem com o homem. Não, esses monges preferem se ajoelhar. Monges? Até a religião morre no instante em que se transforma em rito. 


[Contra os poetas – Witold Gombrowicz, 1947].

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Entre o abismo e o abrigo, casa é
uma pálpebra que treme

O rumor de suas ondas se mantém presente
pelas conchas dos ouvidos de quem pensa que a habita

Uma casa escondida num cofre,
uma casa atada ao naufrágio de qualquer solução,
a Rua do Mundo presa na vulva de sua Casa;
uma casa em permanente expansão

A casa e sua geometria labiríntica,
a casa que não abriga,
a cidade e suas infindáveis serpentes de concreto,
a casa suporta o mundo e suas inesgotáveis chuvas oblíquas

Casas sonolentas assistem ao estranho vagar dos dias,
casas mal vividas,
margens de despidas engrenagens,
máquinas eficientes de viver

A casa respira e se distende
rumo à ampliação de sua simetria
A casa não se limita,
o crescimento interno da casa não se deixa sentir

Casas aladas são esboços de um coração que ainda baterá
A casa concentrada atravessa a casa expansiva
A casa e seus escombros rejuvenescem os homens

Nas páginas espumantes da casa-corpo,
toda sombra guarda uma palavra;
ali, são as pernas que carregam seus escombros

A forma trágica de uma simples maçã preenche os silêncios da casa
Um sonhador desperta os móveis adormecidos e a casa flutua
entre um equilíbrio íntimo de paredes e brilhos renovados

Corredores se ampliam
em um estranho murmúrio de sol
Flores de cicutas enfeitam os vasos
O amor adoeceu sua casa,
o amor entupiu sua pia

Aqui, esta casa se afunda pelo meio dos cabelos e
a vida mente diante das estruturas
Luas mortas brilham no firmamento da razão

As ruínas carecem de método,
pássaros alheios atravessam continentes errantes
A casa nos sonha
Os mapas transbordam

É a cidade que nos imagina
quando caminhamos
mais estranhos do que o paraíso,
mais remotos do que o espaço,
desentranhados dos velhos dicionários

Também o relâmpago nos olha
quando acompanhamos os ingênuos com os seus jornais,
a ciência experimental dos solitários,
a ciência lírica dos desenganados

Na geometria do olho cada palavra contêm um diminuto oceano,
pela clausura da pele brilha a metáfora dissonante,
para além de todas as casas em que alguém já sonhou habitar
– A cidade é toda ela a casa do homem

É a cidade que nos sonha


("Casa" in: Máquina de fazer mar, 2016, 7Letras, AGC)


quinta-feira, 31 de agosto de 2017

É com satisfação que acabo de publicar um artigo na revista Plural da USP sobre o Flávio de Carvalho e seu livro mais etnográfico "A origem animal de deus". A quem interessar possa, segue aqui o link: https://www.revistas.usp.br/plural/article/view/122540/133161