terça-feira, 8 de agosto de 2017

Sim, talvez o tempo não passe mesmo da palavra tempo
adormecida na serpente da língua, esta lâmina
de carnes indizíveis que dança pelas tardes inevitáveis e
pela chuva que deságua para fora do poema

Éramos frágeis animais com nossas luas soltas
e alguns silêncios coagulados num túnel a transbordar
suas delícias agridoces contraindicadas para quem
ainda acreditasse nas ficções do meio-dia

Palavras mínimas levavam muito tempo para se dissolverem
com aqueles corpos faiscando por paredes translúcidas
e janelas desmedidas de cortinas diárias e diáfanas

Éramos frágeis animais com nossas bússolas invertidas
e diamantes de destruição; uma sombra líquida nascia
no mar justaposto do teu ventre

O caroço morto de uma estrela renascia e brilhava
através da alegria amarga de um girassol

Atados pelo sol, surdos a qualquer música
que não viesse de nossas próprias pulsações,
éramos um ruído auditivo e um sopro sonoro,
– mínima lâmina –
ecoando no interior do interior do interior

Os primeiros mapas do mundo eram da cor de sua pele
[II]
Cabelos de relâmpago cobriam o véu dos óculos
Relâmpagos nos cabelos reuniam a ferrugem carmesim do sol
O céu era preso por uma cola de goma arábica

Pessoas de poucas estrelas se misturavam às paisagens
para navegar nas pálpebras de óculos sem molduras
A cidade guardava seus acervos nos incêndios da memória
– nua como uma terra

Cabelos em relampejo cobriam as cortinas da lua
– árida pantera –,
estéril orbe de cabelos infecundos a afundar por treva adentro

Anjos do éter traziam suas almas
incendiadas pelos outdoors, de fio a pavio,
as entranhas da noite eram presas por uma cola de goma arábica

Eram esses supermercados de corações usados,
doces mercados de corações descartados;
Os supermercados do amor estão sempre lotados

[III]
Era este um mundo sem calmantes e sem troféus
Eram estas esquinas inevitáveis
Era esta uma procissão de Macunaímas dissuadidos
– procissão dos desiludidos no amor

Um filme queria rasgar a tela
Peixes eram cobertos por serpentinas envelhecidas
Cigarros também tombavam como folhas mortas
As meninas e suas pélvis eram reguladas por redes
de apanhar borboletas

No mercúrio cromo do mar uma mulher se vestia de avesso
com seu parangolé de navalhas,
carregava sua capa composta
pelo abrigo de outro abismo solar

Ninfa do cimento desfilava sobre o vórtice da vertigem,
bebia seu Dionísio engarrafado para depois deixar raiar
seu eclipse na mais fina flor

[IV]
Dedos lúcidos percorriam outros azuis,
os olhos possuíam a mesma voragem laminada do tempo,
– este rei pândego iluminado por estrelas do éter,
um deus endomingado de chumbo derretido:
o tempo, lapso e colapso a compor
a chuva imóvel deste nosso tempo

Ela me fez acreditar no infinito da linguagem


["Razor love" in: Máquina de fazer mar (2016,7Letras); AGC]

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Não, talvez o tempo não passe mesmo da palavra tempo
adormecida numa lâmina desmedida
de carnes indizíveis

Branca fosse a página, mais agudo seria o dia,
mais lenta seria a paisagem,
mais amargo seria amar

Aqui as flores são de sangue,
blood flowers,
desconfie das flores

Amantes carregam ímãs voltados para o acaso
dos desencontros, para que a rua noturna
se fixe na placa sensível do dia

Um astronauta advinha o vinho provindo da garganta
a anunciar a próxima primavera convulsa;
dois abismos fabulam entre si

Eva sem treva carrega o tédio dos astronautas em si,
traz a vertigem de um oceano em cada olhar
Seria tudo travessia?

Ainda que nossas peles não fossem exatamente
livros de viagem, 
ainda assim,
o caroço morto de uma estrela
renascia e brilhava através da alegria
amarga de um sol

Éramos precários acidentes
Representávamos a menor palavra faiscando
na geometria do olho

Éramos ossos germinando ossos
Éramos sonhos em movimento
Carregávamos escombros de diamantes
Éramos bibliotecas de carne


["Bloodflowers" in: Máquina de fazer mar (7Letras, 2016); AGC]