quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Capa de Abismo

Veste teu manto de loucura e sai pela noite. Sai pela noite porque tudo é tão misterioso. Que todas tuas ilusões perdidas são só algum brilho desvairado. Ri do teu próprio ser atropelado, mas que a noite é tua. A barba que te cerra o rosto é o destino vestido dentro de cada olhar. Como uma estrela desgovernada.
Teus medos, tua parafernália de exageros. Que a noite é tua loucura, tuas utopias despedaçadas. De claridades noturnas você sai por aí como um lobo atrás da caça. Teus segredos se desfazem, mas tudo permanece em aberto. E você nem nota que a sarjeta é tua liturgia, bela pulsação de delírios.
Tira estas roupas que incomodam tua existência e anda com teus pés descalços. Que tudo que sobrou foi uma música tocando baixinha, uma música que talvez nem exista mais. Pisa de leve sobre tais ruínas. Quem sabe assim pelo menos a noite possa parar de morrer.
Coloca tua máscara, anda com tua classe de príncipe sobre teu reino depredado. Tira este relógio da parede, utiliza teu relógio imaginário. Recolhe tuas migalhas, veste tua capa de abismo. Veste teu manto de loucura e sai pela noite. E quem sabe desse jeito, um dia, a noite possa parar de morrer...


[De “Poemas para se ler ao meio-dia” (2006, 7Letras)].

domingo, 23 de agosto de 2015

E hoje o Nelson faria 103 anos...aqui algumas de suas auspiciosas frases...


"Qualquer indivíduo é mais importante do que a Via Láctea"; "A grande vaia é mil vezes mais forte, mais poderosa, mais nobre do que a grande apoteose. Os admiradores corrompem" ; "Se eu tivesse que dar um conselho, diria aos mais jovens: – não façam literatice. O brasileiro é fascinado pelo chocalho da palavra."; "O brasileiro é um feriado"; "Só acredito nas pessoas que ainda se ruborizam"’; “As vaias são os aplausos dos desanimados”; “o amor não deixa sobreviventes”; “Toda coerência é, no mínimo, suspeita”; “A maioria das pessoas imagina que o importante, no diálogo, é a palavra. Engano, e repito: – o importante é a pausa. É na pausa que duas pessoas se entendem e entram em comunhão”; “O futebol é passional porque é jogado pelo pobre ser humano. (...) Muitas vezes é a falta de caráter que decide uma partida. Não se faz literatura, política e futebol com bons sentimentos.”; “Não reparem que eu misture os tratamentos de "tu" e "você". Não acredito em brasileiro sem erro de concordância”; “A platéia só é respeitosa quando não está entendendo nada”; “Só o rosto é indecente. Do pescoço para baixo, podia-se andar nu”’; “O sábado é uma ilusão”; “Como a nossa burguesia é marxista! E não só a alta burguesia. Por toda parte só esbarramos, só tropeçamos em marxistas. Um turista que por aqui passasse havia de anotar em seu caderninho: 'O Brasil tem 100 milhões de marxistas'.”; “Até dormindo sou mais inteligente que o Doutor Armando Nogueira.”; “O boteco é ressoante como uma concha marinha. Todas as vozes brasileiras passam por ele”; “Pode-se identificar um Tricolor entre milhares, entre milhões. Ele se destingue dos demais por uma irradiação específica e deslumbradora"; “Desconfio muito dos veementes. Via de regra, o sujeito que esbraveja está a um milímetro do erro e da obtusidade.”; “Acho a velocidade um prazer de cretinos. Ainda conservo o deleite dos bondes que não chegam nunca.” “O Flamengo tem mais torcida, o Fluminense tem mais gente! Meu Deus, por que existem tantos olhos no mundo?”; ““Supõe-se que todas as alegrias se parecem. Mas a verdade é que a alegria rubro-negra não se parece com nenhuma outra. Não sei se é funda, ou mais dilacerada, ou mais santa. Só sei que é diferente.”;"A Grande Guerra seria apenas a paisagem, apenas o fundo das nossas botinadas. Enquanto morria um mundo e começava outro, eu só via o Fluminense"; “Em 1911 ninguém bebia um copo d´água sem paixão”; “Toda autocrítica tem a imodéstia de um necrológio redigido pelo próprio defunto”; ” A Europa é uma burrice aparelhada de museus”; "Nas situações de rotina, um `pó-de-arroz' pode ficar em casa abanando-se com a Revista do Rádio. Mas quando o Fluminense precisa de número, acontece o suave milagre: os tricolores vivos, doentes e mortos aparecem. Os vivos saem de suas casas, os doentes de suas camas e os mortos de suas tumbas."; "Ser tricolor não é uma questão de gosto ou opção, mas um acontecimento de fundo metafísico, um arranjo cósmico ao qual não se pode – e nem se deseja – fugir. Pode-se identificar um Tricolor entre milhares, entre milhões. Ele se distingue dos demais por uma irradiação específica e deslumbradora. O Fluminense nasceu para atravessar a harmonia do bloco dos contentes. Nasceu para incomodar o senso comum. Essa é a nossa sina."; “É preciso ir ao fundo do ser humano. Ele tem uma face linda e outra hedionda. O ser humano só se salvará se, ao passar a mão no rosto, reconhecer a própria hediondez”; “Só os profetas enxergam o óbvio”. (...) 

"As grandes convivências estão a um milímetro do tédio."; "O artista tem que ser gênio para alguns e imbecil para outros. Se puder ser imbecil para todos, melhor ainda."; "Nós, da imprensa, somos uns criminosos do adjetivo. Com a mais eufórica das irresponsabilidades, chamamos de "ilustre", de "insigne", de "formidável", qualquer borra-botas."; "Ou a mulher é fria ou morde. Sem dentada não há amor possível."; "A mais tola das virtudes é a idade. Que significa ter quinze, dezessete, dezoito ou vinte anos? Há pulhas, há imbecis, há santos, há gênios de todas as idades."; "Toda mulher bonita leva em si, como uma lesão da alma, o ressentimento. É uma ressentida contra si mesma."; "Chegou às redações a notícia da minha morte. E os bons colegas trataram de fazer a notícia. Se é verdade o que de mim disseram os necrológios, com a generosa abundância de todos os necrológios, sou de fato um bom sujeito."; "Entre o psicanalista e o doente, o mais perigoso é o psicanalista."; "Quando os amigos deixam de jantar com os amigos [por causa da ideologia], é porque o país está maduro para a carnificina."; "A educação sexual só devia ser dada por um veterinário"; "Deve-se ler pouco e reler muito. Há uns poucos livros totais, três ou quatro, que nos salvam ou que nos perdem. E, no entanto, o leitor se desgasta, se esvai, em milhares de livros mais áridos do que três desertos."



quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Por que é sideral o olhar do verdadeiro viajante?

Por que é sideral o olhar do verdadeiro viajante? Como ninguém, ele sabe que o mundo começou sem o homem e se acabará sem ele. Percebe que todos os mitos, estilos e linguagens são construções de sentido, sempre à beira de um abismo desguarnecido. Sente que sua viagem não terá propriamente um regresso ou gratificação maior do que a própria viagem; sua exploração ficará sempre inconclusa. No entanto, entre a solidão que reproduz a máquina de uma cultura herdada e o desalinho desse caos caleidoscópico do mundo que se deixa entrever, prefere a segunda condição: a de navegante sideral, fiel apenas à própria narrativa, senhor de suas histórias e paisagens, aquém de todo pensamento e além de toda sociedade.

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

ELEIÇÃO É FESTA POPULAR
















“Eleição é festa popular, e a festa tem certos convidados inconvenientes” – esta foi a declaração do presidente do TRE (Tribunal Regional Eleitoral), Bernard Garcez ao avalizar a candidatura à deputado estadual do Rio de Janeiro com o nome de urna de “Barack Obama”. Sim, as eleições se aproximam no domingo próximo, dia 5 de outubro. Se fôssemos levar a sério tal afirmação dada no mês passado pelo presidente do Tribunal Regional Eleitoral, poderíamos até dizer que no Brasil todos somos meros convidados constrangidos a uma votação obrigatória.
Tão inaudita quanto esta afirmação talvez seja a atingida pela presidente da Petrobrás, a engenheira química Graça Foster, ao declarar ano passado à Folha de São Paulo que se sentia emocionada quando via um engarrafamento pois imaginava que mais pessoas estavam consumindo petróleo. – "Acho lindo engarrafamento pois o meu negócio é vender combustível. Acho lindo carro na rua, estou faturando."...Bom, ao que tudo indica, aparentemente a senhorita Foster não deve ter lido o conto "A auto-estrada do sul" e nem assistido ao filme "Weekend" de Godard que tematizam o pesadelo urbano dos mega-congestionamentos provocados pelos excessos da indústria automobilística.
Vivemos realmente em um país tão chistoso e gracejante que a realidade não chega a esperar seus contornos ficcionais para nos pregar peças. É no mínimo curioso que a ficção não tenha esperado muito tempo para produzir a situação de termos uma presidente de estatal chamada Graça. Nem mesmo Campos de Carvalho a teria imaginado ao escrever o romance surrealista "O púcaro búlgaro" (1964), narrado por um personagem principal chamado Hilário (em referência indireta à Rua Hilário de Gouveia de Copacabana e ao famoso oftalmologista homônimo) sobre uma idiossincrática expedição para descobrir a Bulgária. Nem mesmo Campos de Carvalho imaginaria que um dia teríamos uma presidente em exercício de ascendência búlgara e pronta a ser reeleita.
Mais ficcional ainda parece ter sido a Copa do Mundo em solo brasileiro de Pindorama.  Findada a “Copa das Copas”, ainda permanece um sentimento gerado por um misto de saudade e a impressão de que em “nosso” país o dinheiro que falta para organizar é o mesmo que sobra para desorganizar. Vivemos em um país tão abjeto quanto seus candidatos políticos. Sobram perguntas, faltam respostas. Ainda bem. Se fossemos um país de soluções e planejamentos já não teríamos paradoxalmente o lema positivista em nossa bandeira.
Não deixa de ser curioso o fato de que para o poeta Murilo Mendes o Brasil poder ser descrito como mais surrealista do que todos os surrealistas juntos. Aqui, tradição e modernidade convivem sem dicotomias extremas; aqui gostamos de modernizações conservadoras. Por tal chave, o brasileiro seria tão naturalmente anti-moderno em um momento quanto anti-tradicional em outro instante conseguinte. Isso sem falar na cordialidade recôndita de nossos homens públicos que, ao possuírem a patologia da alegria, também carregam a melancolia de quem não sabe lá muito bem diferenciar o público do privado, a casa da rua. Desde que Grande Otelo bradou macunaimicamente: “Ai, que preguiça!”, em filme de Joaquim Pedro de Andrade sobre a obra supracitada de Mário de Andrade, que vivemos sob a égide da lassidão. De preguiça em preguiça, caminhamos. Melhor a preguiça do que o tempo desenfreado dos progressos destrutivos. A desordem e o progresso nos cai melhor.  
Seria ingênuo pensar que a macro-política brasileira não manifeste os "nossos" valores sociais representados em escala épica. Nosso estilo retórico é bacharelesco e barroco, repleto de circunvoluções e discursos empolados que quanto mais são proferidos, menos mudam; quanto mais mudam, mais permanecem iguais. A arte retórica do bem dizer nos circunda, nossos políticos falam por abstrações. Só mesmo em um país como o Brasil poderia ter figuras políticas de escolas dramáticas tão surpreendentes que foram sintetizadas na figura glauberiana de Paulo Autran "Terra em Transe" (1967), o presidente de Eldorado que personificava um discurso tão eloquente quanto mais pretensamente magnânimo e laureado de ufanismos regozijantes.
Mais tautológicos do que lógicos, caminhamos. Nós e nossos políticos glauberianos.  Sim, as eleições de 2014 se aproximam e para qualquer platéia que quiser o melhor dos anfiteatros circenses é só ligar a sua tele-ilusão com seu descontrole remoto em pleno horário eleitoral. Ainda restam alguns dias e talvez ainda haja segundo round. “Vamos esperar. As melancias ainda vão se assentar no caminhão. A realidade não é um mar de rosas, deve ter segundo turno” – opinou Aparecido Silva, secretário de comunicação do PT-SP antes de ir para outra jornada estafante rumo à Neverland do hibridismo.

quinta-feira, 17 de julho de 2014

A mais ficcional de todas as Copas (parte 3) (texto publicado primeiramente no site Ornitorrinco)

Como diria meu primo, assim é o futebol, o mais ilógico dos esportes, fundamentado não numa lógica, mas numa mitológica. A precisão cirúrgica não existe no ludopédio bretão e, até por isso, o futebol é o jogo mais surpreendente do planeta. O futebol está mais para o jogo de azar do que para o esporte e, por isso mesmo, é o jogo mais popular do planeta. Por exemplo, quem imaginaria que a Costa Rica seria o primeiro colocado em seu grupo? Ou quem poderia jamais imaginar que a campeã Espanha perderia de 6 a 1, logo em sua primeira partida da Copa.

Bom, mas de qualquer forma, nem o o mais apocalíptico dos críticos do selecionado brasileiro imaginaria um estrondoso 7 a 1 em plena Belo Horizonte e, para um cenário mais insólito ainda, para uma Alemanha trajando cores rubro-negras numa jogada de marketing da marca esportiva germânica da Adidas. Na verdade, a Alemanha só possui o primeiro uniforme fixo na cor branca, a segunda camisa alemã é itinerante e muda a cada Copa. Neste torneio realizado em terra brasilis de Pindorama, talvez o escrete alemânico tenha escolhido pela camisa do clube mais popular do país não so por marketing pessoal, mas também para adicionar mais inesperados contornos ficcionais em um quadro em que a seleção canarinho jogaria contra uma Germânia vestida de Flamengo numa semi-final tão doce quanto limão. O certo é que a hecatombe do 7 a 1 ficará marcada nos anais da História com H, assim como também atormentada historicamente ficará a comissão técnica comandada pelo rio platense Luiz Felipe Scolari. Ainda, para “melhorar”, o Brasil levou outro passeio do selecionado batavo por 3 a 0, com a Holanda jogando contra uma inerte seleção brasileira.

Certa vez ouvi um anedotário popular que dizia que técnico é igual a dono de sauna, já que ambos vivem do suor alheio. Não sei se concordo totalmente com tal afirmação, já que existe, ao menos para mim, a clara diferenciação entre técnicos, incentivadores e estrategistas. Para mim, atualmente, Scolari se localiza no limiar entre o incentivador e o treinador de rachões. De qualquer forma, o fatídico 7 a 1 deixará cicatrizes no renomado futebol nacional, ainda que tal placar dificilmente se repita em uma outra semi-final de Copas do Mundo. Até por isso, pelos seus momentos incertos e fortuitos,  definitivamente o futebol é o mais irracional e imprevisível dos esportes e, por isto mesmo, o mais assitido ao redor do globo.

Sim, a Copa mais ficcional de todos os tempos chegou ao seu final em pleno ano enigmático de 2014. Espero que o que seja lembrado em um torneio mundial como este é que uma nação é reiteradamente composta por uma mistura de lembranças e esquecimentos em comum. Não existe nenhuma nação em si ou nenhuma nação substantiva e unívoca. Sendo assim, o que o nacionalismo mais costuma ensinar aos homens é a ficarem orgulhosos por algo que não fizeram e a odiarem pessoas que nunca encontraram. Nesse sentido, é sempre bom lembrar que, quando os astronautas nos olham de cima, não existem fronteiras bem demarcadas entre um país e outro. Para os astronautas, somos todos mais terráqueos do que terratenentes. É tudo uma questão de perspectiva. Tudo uma questão de manter em aberto as margens ficcionais entre os países constitucionais e os países que se reinventam todos os dias; países cujas únicas fronteiras possíveis são formadas por nuvens. Como bem diria o poeta Cláudio Willer: “Não existem as cidades, são nossas viagens que criam roteiros-mapas de superfícies luminosas. As cidades não existem, só os encontros são reais, as prolongadas conversas capazes de transformar qualquer lugar em praia deserta ao anoitecer”.

Por fim, mas não por último, termino aqui este texto (tão futebolístico quanto mais imaginário) com uma edificante citação do não menos magnífico Radamés Stepanovicinsky, o maior bulgarólogo de todos os tempos que vaticina: “Fim do longo, o inútil assombra. A mesma esperança que não se deu se escombra, prolixa...A vida não passa de um mendigo bêbado que estende a mão à sua própria sombra. Dormimos o universo. A extensa massa da confusão das coisas nos enlaça de sonhos. Enquanto isso, a ébria confluência humana desguarnecida e desabitada ecoa-se, de raça em raça, de deserto em deserto, de escombro em escombro. Somos todos reais, excessiva e inesperadamente reais !”

sexta-feira, 11 de julho de 2014

A MAIS FICCIONAL DE TODAS AS COPAS (PARTE 2)

A tal Copa, aquela que já não está tendo, está perto de chegar ao fim. Sim, a Copa mais ficcional de todas as Copas se encaminha para um enigmático desenlance. Apesar da atmosfera insólita que ronda a Copa que já não teve, alguns jogos foram dignos dos jogos mais reais. Partidas envolvendo seleções como Holanda, Brasil, Alemanha, Chile, Uruguai, França, Costa Rica, Estados Unidos, México, Argentina e outras pareciam realíssimas diante da aturdida multidão da Copa que já não teve. Futebol e fiçção andam entrelaçados pela tal Copa do Mundo FIFA de 2014, a mais insólitas de todas as Copas. Nesta Copa, as representações do real estão, incontornavelmente, atreladas à ficção; a ficção se transformou mesmo na verdadeira Realidade.
Durante este período, talvez o que menos tenha chamado a atenção foram os momentos rasos de normalidade. Até o “renomado” jornalista Mário Sergio Conti aderiu à atmosfera abjeta da duplicidade do real. Ao entrevistar seriamente o sósia do técnico Scolari, Conti talvez tenha rompido com as margens que separam o real e seu duplo. Tal qual no filme fabular “F for Fake” narrado por Orson Welles, as fronteiras que demarcam o orginal e a cópia foram borradas e o que teria sobrado seria um quadro documental do caráter inapreensível do real. Curiosamente, o sósia de Scolari deu respostas mais sensatas e sóbrias do que o próprio. Será que se Conti encontrasse Inri Cristo com suas beatas diria que falou com Jesus ressurecto?
 Outra cena interessantíssima foi a de uma cadeirante que voltou a andar em plena Arena Itaquerão durante jogo da seleção nacional. Isto sem falar nas defesas assombrosas do goleiros Howard, Ochoa e outros. Teve também o poste urinando no cachorro e a banana deglutindo o macaco com a surpreendente seleção da Costa Rica a matar o chamado “grupo da morte” entre Inglaterra, Itália e Uruguai.

Deveras lírico foi toda a metade desta lírica Copa supefaturada que teria custado a bagatela de R$ 28 bilhões de Surreais, sendo, assim, a Copa mais cara da História para uma FIFA que não pagará impostos. Tal qual um circo itinerante que leva sua tenda. Continuamos no plano mitológico dos discursos reais que tendem à ficção. Seguimos pelos traçados das verdades críticas, plásticas e permanentemente instáveis. Esperamos por mais inusitados lirismos de mulheres protegendo o baço para ir no FIFA FANfarronice FESTA, barrigas negativas das musas de plástico. Amor em tempos de cólera. Amor em tempos de Tinder. Explosões químicas a ocorrer por toda parte, por onde quer que novos corpos se entrelaçem.
Mas, e o que seria desta Copa sem a a mordida canibal vanguardista do atacante uruguaio Luis Suárez? Inspirado em Hans Staden, Francis Picabia, Lautréamont e Oswald, o centroavante já tem um histórico eclético em dentadas em adversários: primeiro pelo mitológico Ajax batavo, segundo pela Liga Inglesa por onde jogava Suárez até o momento no beatlemaníaco esquete do Liver/pool. A terceira mordida do vampiro uruguaio veio logo em plena Copa 2014, comprovando que o dianteiro é um personagem reincidente em suas aventuras e, praticamente, um Nosferatu pós-moderno. Em jogo apitado pelo Drácula, quem morde é o Suarez.  No entanto, indiferente às metáforas do espetáculo, a FIFA (bastião de um mundo politicamente correto) resolveu expulsar o centroavante-sensação da Copa de 2014. Ainda assim, há uma festa em seu cérebro. Luisito Suarez sabe que não há genialidade possível sem doses de loucura; doses homeopáticas de loucura. Com diamantes em seus pés e lobos em seus olhos, Luis Suarez é até agora a grande figura desta Copa das Copas.

(To be continued) 
 [texto publicado inicialmente no site Ornitorrinco: ornitorrinco.net.br] http://www.ornitorrinco.net.br/2014/07/a-mais-ficcional-de-todas-as-copas.html

domingo, 22 de junho de 2014

A mais ficcional das Copas (parte 1)

“O homem é o único animal que inventa dificuldades para si mesmo, sejam goleiros, zagueiros ou obstáculos” vaticinou o publicitário magnânimo José Zaragoza. Sim, ruas de fogo e ruas de protestos. Está dada a largada para a Copa do Mundo 2014. Este é um texto ficcional sobre a mais ficcional das Copas. Ao contrário do que muitos possam pensar, ficcional não quer dizer mentira ou falácia; apenas a ficção possui outro registro de fala mais próximo de uma mitológica do que de uma lógica. Estamos no registro dos mitos fabulares que saltam e explodem aos olhos de quem pensa que vê. Apaguem as luzes e liguem os holofotes, corações quebrados darão lugar ao maior espetáculo futebolístico do planeta.

Para muitos já não teve Copa, para outros vai ter Festa. O Brasil é o nosso grande abrigo abismo. De repente é aquela corrente fluente que ruma para afluentes fortuitos por onde surgem estádios futuristas brotando do chão. Tudo à la José Agrippino de Paula; nada mais, nada menos. Nos gramados virtuais da linguagem é que surge a felicidade feroz dos deuses léxicos que alimentam as chuvas dos dicionários. O futebol surge dos escombros de nossos desejos; cada drible pode inaugurar uma nova amplidão. Do complexo de vira-lata à pátria de chuteiras, caminhamos. Nós e nossos inconstantes dinamismos vitais. Transversalidades abertas pela escrita. Corpos se movimentam por mudanças. Até parece que todo o Brasil deu a mão, só que contra a FIFA.

O ritual de abertura da Copa realizado no Itaquerão foi, no mínimo, grotesco. A música “We are one” (cantada por Jennifer Lopez, chamada pelos americanos de “J.Lo”, Cláudia Milk e Pittbull) bem poderia se chamar “We are none”. O espetáculo performático foi dirigido por uma belga chamada Daphne Cornez sob a tutela do TVFIFA.

O que se podia ver televisionado era um horror show dos exotismos mais descartáveis: um globo terrestre gigante em formato de globo de pista de dança, um índio remando num caiaque imaginário sendo carregado por eunucos de azul, homens de perna de pau, homens jogando capoeira, homens vestidos de grama rodando em looping, homens travestidos de árvores, mulheres vestidas de flor a simbolizar a chuva desabrochando, avatares amazônicos, homens sentados trancafiados em bolas de futebol circundantes, bailarinas alucinógenas de rosa choque, homens pintados trajando azuis de kitschs mais bufantes.

 O genial Eugênio Ionesco, especialista na arte do absurdo no pior dos piores de seus dias de cólera não teria imaginado uma cena tão insossamente catastófrica. O franco romeno Ionesco, aliás, era especialista na arte de mostrar o quanto o ser humano é, em essência, impalpável e absurdo. O absurdo de Ionesco é um absurdo refinado em comparação com o show de abertura da Copa brasileira e todo o superfaturamento exultante referente aos estádios que foram costruídos para se adequarem ao padrão FIFA. O problema é que, se depender da FIFA e de seus padrões, estaremos todos fadados a termos nossos imaginários colonizados por tristes aldeias globais e, anestesiadamente, multiculturais. Ao que depender do mainstream FIFA o mundo terá esta noção pasteurizada de um país a carregar um exotismo a cada milésimo de segundo.

Provavelmente, nos próximos séculos, muitos escafandristas da História com H escreverão sobre a Copa que, teve e que não teve, no distante ano de 2014. Espero que tais escafandristas (mergulhadores de ruínas vivas) se lembrem das longas terras de índios ferozes sem Idílios, índios de terras faladas de estranhas divindades e brutas chuvas; índios de inconstantes almas selvagens que não se deixam escravizar.

[texto publicado inicialmente no site Ornitorrinco: ornitorrinco.net.br]www.ornitorrinco.net.br/2014/06/a-mais-ficcional-das-copas-parte-1.html