quinta-feira, 22 de setembro de 2016
PÓLEN
O masculino e o feminino se diluem nas ruas
que são rios de nuvens
Os relâmpagos rugem pelas persianas elétricas,
nas avenidas de sombras magnéticas a nos percorrer
Os cílios tremem com uma lua grava na pele
Quantos óculos escuros cabem numa nebulosa de luva?
O passado espera em gavetas dissonantes e
afunda a cabeça por travesseiros em chamas, pólen
Há pólen no jornal enlatado,
pólen nas doces guitarras e pálidas telas;
pólen nas agressivas estrelas,
pólen nas tragédias grávidas de turbinas e girassóis
(As parabólicas são as mães dos segredos. As buzinas não emocionam mais.)
O dia lê a noite; a lâmpada lê o fósforo;
a estante lê o livro; o dicionário lê o instante;
o grito lê o silêncio
O transe do engenheiro quer abolir a noite e
declarar guerra às flores
Um girassol pode incendiar o incêndio
Um guarda-chuva pode gerar a tempestade
Somos todos máquinas de assombrar o tempo
Por isso mesmo não se deve comer os bilhetes de loteria
(AGC - Os tigres cravaram as garras no horizonte [2010])
sexta-feira, 16 de setembro de 2016
Seres da Tempestade
No intervalo entre 2 quedas,
Numa orquestra dissonante –
encharcada de vida, desalentada de pressa
Projeções & estranhas sensações,
projetos & essências de jardins erráticos,
paraísos atormentados de sentidos
projetos & essências de jardins erráticos,
paraísos atormentados de sentidos
Em tempos surdos de primaveras desalmadas,
nas 2 escuridões do dia,
nas 2 eternidades da noite
nas 2 escuridões do dia,
nas 2 eternidades da noite
Um nascimento esculpe a luz
de auroras meditadas & editadas
pela selva de uma memória tardia:
pedaços de uma tríplice fronteira,
uma era pós-romântica,
a incerteza quântica
de auroras meditadas & editadas
pela selva de uma memória tardia:
pedaços de uma tríplice fronteira,
uma era pós-romântica,
a incerteza quântica
– Os ismos dos anos,
uns quartos alados,
uns óculos escuros,
uns cacos de sargaços,
alguns novos enganos
uns quartos alados,
uns óculos escuros,
uns cacos de sargaços,
alguns novos enganos
Desmantelos azuis,
plenos instantes,
esquinas sem volta,
brutos diamantes
plenos instantes,
esquinas sem volta,
brutos diamantes
– Filósofos e outras aves:
a primavera e seu silêncio enciclopédico;
uns anjos assassinos,
outros exterminadores aos pedaços
a primavera e seu silêncio enciclopédico;
uns anjos assassinos,
outros exterminadores aos pedaços
Seres da tempestade se movem pela cidade
Seres da tempestade já não sentem saudade,
Inimigos da vaidade, marítimos da raridade;
a lua &o blues alumbram Seres da Tempestade
(AGC 2016; poema escrito sobre série de Mario Wagner; http://www.mario-wagner.com/ART-COM )
Seres da tempestade já não sentem saudade,
Inimigos da vaidade, marítimos da raridade;
a lua &o blues alumbram Seres da Tempestade
(AGC 2016; poema escrito sobre série de Mario Wagner; http://www.mario-wagner.com/ART-COM )
Piscando com os punhos (poemas de Billy Corgan traduzidos por Augusto Guimaraens Cavalcanti).
Pense nos pássaros em voo e você irá começar a se aproximar /Como as faces veem da escuridão familiar /Para cumprimentá-lo novamente / Eles arrancam as cordas e cantam os refrões que eu conheço tão bem, e mantenho tão perto. Ao longo dos suaves rios e verdes vales até chegarmos à beira do vasto oceano / O maior mar que se pode imaginar e mais/ Levante sua mão e deixe os pássaros voarem com essa música doce / Velozes nós voamos por sobre as águas /Cada vez mais rápidos até aclararmos, e nossas palavras se iluminarem, e as memórias das coisas perdidas se clarificarem também / O sol alça voo / Imagine isso do ponto de vista do sol / Essas aves e o que se move à velocidade da luz sobre o azul / Bem, se você fosse o sol, iria rir muito! /Finalmente, depois de uma viagem tão momentosa /Você desacelera em uma ilha deserta, exuberante como a vida /E em sua terra estéril você encontrará o peito de mar de um baú usado /Polido pelos anos de grosseira manipulação/ Abra esta caixa e você irá encontrar no interior /Uma única cavidade e a poesia do meu coração / Arrastando esta caixa de mar ao redor da curva /Através da areia em uma selva densa, com flores e sombras / Nós tomamos o caminho esquecido até a encosta /Até à direção do sol a sorrir /Recolhendo sua sabedoria, e sua dádiva /Passado o fantasma que sussurra as relíquias de um outro passado / Escalamos para o topo / Porque o tempo não vai ficar parado por nós / Mas ele irá fingir de vez em quando / E aqui, esquecidos, somos só você, eu / Um peito de mar, segurando uma única noite dos namorados e a poesia dos nossos corações / Uma única lâmpada de luz nesta sala/ É escuro aqui o tempo todo / Se o teto havia capturado apenas os meus sonhos e pesadelos semelhantes, / Que histórias poderia mostrar / Ela está aqui, a única que eu amo, desejo, concebo, resgato, tudo para a própria tristeza do meu coração/ Estou perdido nesta sala, mas este é o lugar onde os corações são escritos / A vista do meu maior pensamento e infeliz canção / Não há pássaros aqui para alçar vôo / Nenhum oceano para sobrevoar, nenhuma ilha para chegar / Nenhum sol para me surpreender chorando /Este é o dom do esquecimento e sua opaca dança / Revelando agora a poesia do meu próprio peito / a sua tristeza e seu desejo sem nome que uma vez chamei de felicidade / Despojado de seu título e dopado para mostra / As lâmpadas bailam, as crianças cantam/ O galo cacareja e eu procuro dormir / Em algum lugar do passado as cicatrizes, os carros vazios e os bares intermináveis cheios de lembranças / Eu quero subir a partir deste buraco / E traçar uma fuga eu mesmo por cima das rochas abaixo / Porque um pulo necessita de intenção / E a intenção exige desejo / Para registrar desejo neste órgão chamado necessidade /Você precisa de mim? /Então me empurre mais, meu peito e meu mar / As aves vão me seguir / Refaça os passos, até ao limite máximo / Volte com a lâmpada, com os fios elétricos / Eletrizados bem para fora de Manhattan /Saindo por um outro lado / Para a direção de uma criança, de um sonho /Um peito rabiscado com um x, e que a verdade seja dita com raiva/ Revelando agora a poesia do meu coração / E as copas que pintam nos baralhos / Os desenhos das molduras / E sua gaiola real, eu
Um poema, se quiser: Ondas suaves raiam fora do alcance Tudo que eu respiro é meu Meu nome é somente uma casca a ser retirada lentamente como a pele das questões formais Lentamente do meu sexo eu embaralho os sindicatos de oferta As vozes silenciadas estão aqui, mas eles já estão saciados pela espera total por um tropeço Isso certamente deve vir “neste momento”, alguém declara em voz alta (na praça anônima) “desta vez não haverá nenhum tropeço” E a multidão, em uníssono entra descontroladamente em erupção, “Enquanto eu durmo eles vêm em pares para tapar minha cabeça e me ensinar aquele verso antigo que tento lhes dizer por toda minha vida redundante Ao colocar o dedo no meu templo para mostrar sabendo Com hematomas e cicatrizes Eu estou piscando com meus punhos As linhas do coro se alinham para cantar Uma respiração profunda, pronta para começar Tudo que eu respiro é meu Um bebê chorando quebra o silêncio Segue o riso constrangedor, a fim de sinalizar a " ordem divina", diz alguém caindo das chaminés, através das veias, membros são jogados para fora das obras desenhadas na sujeira, as figuras são retratadas em um impressionante ato de repouso pelos seus pulsos que ainda estão piscando
Do livro Blinking with fists (2004)
Um poema, se quiser: Ondas suaves raiam fora do alcance Tudo que eu respiro é meu Meu nome é somente uma casca a ser retirada lentamente como a pele das questões formais Lentamente do meu sexo eu embaralho os sindicatos de oferta As vozes silenciadas estão aqui, mas eles já estão saciados pela espera total por um tropeço Isso certamente deve vir “neste momento”, alguém declara em voz alta (na praça anônima) “desta vez não haverá nenhum tropeço” E a multidão, em uníssono entra descontroladamente em erupção, “Enquanto eu durmo eles vêm em pares para tapar minha cabeça e me ensinar aquele verso antigo que tento lhes dizer por toda minha vida redundante Ao colocar o dedo no meu templo para mostrar sabendo Com hematomas e cicatrizes Eu estou piscando com meus punhos As linhas do coro se alinham para cantar Uma respiração profunda, pronta para começar Tudo que eu respiro é meu Um bebê chorando quebra o silêncio Segue o riso constrangedor, a fim de sinalizar a " ordem divina", diz alguém caindo das chaminés, através das veias, membros são jogados para fora das obras desenhadas na sujeira, as figuras são retratadas em um impressionante ato de repouso pelos seus pulsos que ainda estão piscando
Do livro Blinking with fists (2004)
Da Eterna
Se a solenidade, a postura douta, as estátuas e as ruas com sobrenomes fossem proporcionadas ao pensar profundo, quão pouco dessa estofa haveria: o viver não precisaria de tanta paciência nem abundaria tanta tentação de uma vileza em troca de celebridade. Por enquanto, a profusão de estátuas, aniversários, volumes de história, sobrenomes de esquina e escritos da segura virtude fazem muita suspeita essa sociedade da perdoável pobre gente que somos todos; os sobressalta notar tanto trabalho dos homens por parecerem bons, numa civilização tão apaixonada pelas fechaduras Yale e pelos bons modos, armadilha para adoecer vítimas. Cidades de melhor gosto teriam ruas chamadas de Chuva do Despertar, o Caminho Orvalho cruzado pela avenida do “Homem Não Idêntico”. (...). Cumpriu-se a beleza da não História; foram suprimidas as homenagens a capitães, generais, advogados, governadores, nas quais não se recorda o nome de nenhuma magnífica obra desnorteada de vida; (...) Praças e parques com os nomes das máximas vivências humanas, sem sobrenomes; (…). Foram deportadas todas as estátuas que enlutam as praças, e seu lugar foi ocupado pelas melhores flores; apenas se substituiu a de José de San Martín por uma simbolização do “Dar e Partir”. Enfim, na cidade presentista algo fez o tempo não transcorrente, como a história, e sim um Presente fluído, com memória só do que volta cotidianamente a ser, não do que não se repete, como os aniversários. Por isso o almanaque da cidade tem 365 dias de um só nome: “Hoje”, e a avenida principal se chama também “Hoje”. (...) A cidade se deslocou sobre seu eixo girando seu perímetro alguns centímetros. (...) De volta à estância “O Romance”, davam-se os bons-dias. Mas a Eterna voltou à noite para Buenos Aires, e eu sei para quê. Para atribuir às duas Praças Centrais os nomes da “Cidade sem Morte” e “Dos Homens Não Idênticos”; essas denominações se completavam na ligação de uma Praça com a outra. (O não idêntico está isento de morte.)
(Macedonio Fernández, Museu do romance da Eterna, 1967)
(Macedonio Fernández, Museu do romance da Eterna, 1967)
quinta-feira, 1 de setembro de 2016
Os cem sóis de Maiakóvski
Já que nos últimos dias têm sido evocados poemas de Maiakóvski, aqui o meu preferido dele; os cem sóis de Maiakóvski: "Brilhar para sempre, / brilhar como um farol, / brilhar com brilho eterno, / gente é para brilhar, / que tudo mais vá pro inferno, / este é o meu slogan / e o do sol."
A tarde ardia em cem sóis
O verão rolava em julho.
O calor se enrolava
no ar e nos lençóis
da datcha onde eu estava,
Na colina de Púchkino, corcunda,
o monte Akula,
e ao pé do monte
a aldeia enruga
a casca dos telhados.
E atrás da aldeia,
um buraco
e no buraco, todo dia,
o mesmo ato:
o sol descia
lento e exato
E de manhã outra vez
por toda a parte
lá estava o sol
escarlate.
Dia após dia
isto começou a irritar-me
terrivelmente.
Um dia me enfureço a tal ponto
que, de pavor, tudo empalidece.
E grito ao sol, de pronto:
¿Desce!
Chega de vadiar nessa fornalha!
E grito ao sol:
¿Parasita!
Você aí, a flanar pelos ares,
e eu aqui, cheio de tinta,
com a cara nos cartazes!
E grito ao sol:
¿Espere!
Ouça, topete de ouro,
e se em lugar
desse ocaso de paxá
você baixar em casa
para um chá?
Que mosca me mordeu!
É o meu fim!
Para mim
sem perder tempo
o sol
alargando os raios-passos
avança pelo campo.
Não quero mostrar medo,
Recuo para o quarto.
Seus olhos brilham no jardim.
¿Pois bem,
sente-se, astro!
Quem me mandou berrar ao sol
insolências sem conta?
Contrafeito
me sento numa ponta
do banco e espero a conta
com um frio no peito.
Mas uma estranha claridade
fluía sobre o quarto
e esquecendo os cuidados
começo pouco a pouco
a palestrar com o astro.
Falo disso e daquilo,
como me cansa a Rosta,
etc.
E o sol:
¿Está certo,
mas não se desgoste,
não pinte as coisas tão pretas.
E eu? Você pensa
que brilhar é fácil?
Prove, pra ver!
Mas quando se começa
é preciso prosseguir
e a gente vai e brilha pra valer!¿
Conversamos até a noite
ou até o que, antes, eram trevas.
Como falar, ali, de sombras?
Ficamos íntimos,
os dois.
Logo,
com desassombro
estou batendo no seu ombro.
E o sol, por fim:
¿Somos amigos
pra sempre, eu de você,
você de mim.
Vamos, poeta,
cantar,
luzir no lixo cinza do universo.
Eu verterei o meu sol
e você o seu com seus versos.
¿O muro das sombras,
prisão das trevas,
desaba sob o obus
dos nossos sóis de duas bocas.
Confusão de poesia e luz,
chamas por toda a parte.
Se o sol se cansa
e a noite lenta
quer ir pra cama,
marmota sonolenta,
eu, de repente,
inflamo a minha flama
e o dia fulge novamente.
Brilhar para sempre,
brilhar como um farol,
brilhar com brilho eterno;
Gente é pra brilhar.
Que tudo o mais vá pro inferno,
este é o meu slogan
e o do sol.
("A extraordinária aventura vivida por Vladimir Maiakóvski no verão na Datcha". Poema escrito em 1920, ano da maior medição de calor na Rússia em todo século XX, ao que o poeta descobriu que seu lema era o mesmo do sol; ao que o poeta convida o sol para beber 1 chá.) [Tradução: Augusto de Campos]
A tarde ardia em cem sóis
O verão rolava em julho.
O calor se enrolava
no ar e nos lençóis
da datcha onde eu estava,
Na colina de Púchkino, corcunda,
o monte Akula,
e ao pé do monte
a aldeia enruga
a casca dos telhados.
E atrás da aldeia,
um buraco
e no buraco, todo dia,
o mesmo ato:
o sol descia
lento e exato
E de manhã outra vez
por toda a parte
lá estava o sol
escarlate.
Dia após dia
isto começou a irritar-me
terrivelmente.
Um dia me enfureço a tal ponto
que, de pavor, tudo empalidece.
E grito ao sol, de pronto:
¿Desce!
Chega de vadiar nessa fornalha!
E grito ao sol:
¿Parasita!
Você aí, a flanar pelos ares,
e eu aqui, cheio de tinta,
com a cara nos cartazes!
E grito ao sol:
¿Espere!
Ouça, topete de ouro,
e se em lugar
desse ocaso de paxá
você baixar em casa
para um chá?
Que mosca me mordeu!
É o meu fim!
Para mim
sem perder tempo
o sol
alargando os raios-passos
avança pelo campo.
Não quero mostrar medo,
Recuo para o quarto.
Seus olhos brilham no jardim.
Avançam mais.
Pelas janelas,
pelas portas,
pelas frestas
a massa solar vem abaixo
e invade a minha casa.
Pelas janelas,
pelas portas,
pelas frestas
a massa solar vem abaixo
e invade a minha casa.
Recobrando o fôlego,
me diz o sol com a voz de baixo:
¿Pela primeira vez recolho o fogo,
desde que o mundo foi criado.
Você me chamou?
Apanhe o chá,
pegue a compota, poeta!
Lágrimas na ponta dos olhos
- o calor me fazia desvairar, eu lhe mostro
o samovar:
me diz o sol com a voz de baixo:
¿Pela primeira vez recolho o fogo,
desde que o mundo foi criado.
Você me chamou?
Apanhe o chá,
pegue a compota, poeta!
Lágrimas na ponta dos olhos
- o calor me fazia desvairar, eu lhe mostro
o samovar:
¿Pois bem,
sente-se, astro!
Quem me mandou berrar ao sol
insolências sem conta?
Contrafeito
me sento numa ponta
do banco e espero a conta
com um frio no peito.
Mas uma estranha claridade
fluía sobre o quarto
e esquecendo os cuidados
começo pouco a pouco
a palestrar com o astro.
Falo disso e daquilo,
como me cansa a Rosta,
etc.
E o sol:
¿Está certo,
mas não se desgoste,
não pinte as coisas tão pretas.
E eu? Você pensa
que brilhar é fácil?
Prove, pra ver!
Mas quando se começa
é preciso prosseguir
e a gente vai e brilha pra valer!¿
Conversamos até a noite
ou até o que, antes, eram trevas.
Como falar, ali, de sombras?
Ficamos íntimos,
os dois.
Logo,
com desassombro
estou batendo no seu ombro.
E o sol, por fim:
¿Somos amigos
pra sempre, eu de você,
você de mim.
Vamos, poeta,
cantar,
luzir no lixo cinza do universo.
Eu verterei o meu sol
e você o seu com seus versos.
¿O muro das sombras,
prisão das trevas,
desaba sob o obus
dos nossos sóis de duas bocas.
Confusão de poesia e luz,
chamas por toda a parte.
Se o sol se cansa
e a noite lenta
quer ir pra cama,
marmota sonolenta,
eu, de repente,
inflamo a minha flama
e o dia fulge novamente.
Brilhar para sempre,
brilhar como um farol,
brilhar com brilho eterno;
Gente é pra brilhar.
Que tudo o mais vá pro inferno,
este é o meu slogan
e o do sol.
("A extraordinária aventura vivida por Vladimir Maiakóvski no verão na Datcha". Poema escrito em 1920, ano da maior medição de calor na Rússia em todo século XX, ao que o poeta descobriu que seu lema era o mesmo do sol; ao que o poeta convida o sol para beber 1 chá.) [Tradução: Augusto de Campos]
terça-feira, 2 de agosto de 2016
Velho, não. / Entardecido, talvez. / Antigo, sim. / Me tornei antigo / porque
a vida, / tantas vezes, se demorou. / E eu a esperei / como um rio aguarda a
cheia. / Gravidez de fúrias e cegueiras, / os bichos perdendo o pé, / eu
perdendo as palavras. / Simples espera / daquilo que não se conhece / e, quando
se conhece, / não se sabe o nome. (...). Nosso amor é impuro / como impura é a
luz e a água / e tudo quanto nasce / e vive além do tempo. / Minhas pernas são
água, / as tuas são luz / e dão a volta ao universo / quando se enlaçam / até se
tornarem deserto e escuro. / E eu sofro de te abraçar / depois de te abraçar
para não sofrer. // E toco-te / para deixares de ter corpo / e o meu corpo
nasce / quando se extingue no teu. // E respiro em ti / para me sufocar / e
espreito em tua claridade / para me cegar, / meu Sol vertido em Lua, / minha
noite alvorecida. // Tu me bebes / e eu me converto na tua sede. / Meus lábios
mordem, / meus dentes beijam, / minha pele te veste / e ficas ainda mais
despida. // Pudesse eu ser tu / E em tua saudade ser a minha própria espera. //
Mas eu deito-me em teu leito / Quando apenas queria dormir em ti. // E sonho-te
/ Quando ansiava ser um sonho teu. // E levito, voo de semente, / para em mim
mesmo te plantar / menos que flor: simples perfume, / lembrança de pétala sem
chão onde tombar. // Teus olhos inundando os meus / e a minha vida, já sem
leito, / vai galgando margens / até tudo ser mar. / Esse mar que só há depois
do mar. (...). Mente o tempo: / a idade que tenho / só se mede por infinitos.
// Pois eu não vivo por extenso. // Apenas fui a Vida / em relampejo do
incenso. // Quando me acendi / foi nas abreviaturas do imenso. (...) cruzo as
mãos / sobre as montanhas / um rio esvai-se // ao fogo do gesto / que inflamo
// a lua eleva-se / na tua fronte / enquanto tateias a pedra / até ser flor (...). Esse que em mim
envelhece / assomou ao espelho / a tentar mostrar que sou eu. // Os outros de
mim, / fingindo desconhecer a imagem, / deixaram-me a sós, perplexo, / com meu
súbito reflexo. // A idade é isto: o peso da luz / com que nos vemos. (...). No
oculto do ventre, / o feto se explica como o Homem: / em si mesmo enrolado / para
caber no que ainda vai ser. // Corpo ansiando ser barco, / água sonhando
dormir, / colo em si mesmo encontrado. // Na espiral do feto, / o novelo do afeto
/ ensaia o seu primeiro infinito. (...). Foi para ti / que desfolhei a chuva / para ti soltei o perfume da terra / toquei no nada / e
para ti foi tudo // Para ti criei todas as palavras / e todas me faltaram / no
minuto em que talhei / o sabor do sempre // Para ti dei voz / às minhas mãos / abri
os gomos do tempo / assaltei o mundo / e pensei que tudo estava em nós / nesse
doce engano / de tudo sermos donos / sem nada termos / simplesmente porque era
de noite / e não dormíamos / eu descia em teu peito / para me procurar / e
antes que a escuridão / nos cingisse a cintura / ficávamos nos olhos / vivendo
de um só / amando de uma só vida
(Mia Couto – o “tradutor de chuvas”).
(Mia Couto – o “tradutor de chuvas”).

Velho, não. / Entardecido, talvez. / Antigo, sim. / Me tornei antigo / porque a vida, / tantas vezes, se demorou. / E eu a esperei / como um rio aguarda a cheia. / Gravidez de fúrias e cegueiras, / os bichos perdendo o pé, / eu perdendo as palavras. / Simples espera / daquilo que não se conhece / e, quando se conhece, / não se sabe o nome. (...). Nosso amor é impuro / como impura é a luz e a água / e tudo quanto nasce / e vive além do tempo. / Minhas pernas são água, / as tuas são luz / e dão a volta ao universo / quando se enlaçam / até se tornarem deserto e escuro. / E eu sofro de te abraçar / depois de te abraçar para não sofrer. // E toco-te / para deixares de ter corpo / e o meu corpo nasce / quando se extingue no teu. // E respiro em ti / para me sufocar / e espreito em tua claridade / para me cegar, / meu Sol vertido em Lua, / minha noite alvorecida. // Tu me bebes / e eu me converto na tua sede. / Meus lábios mordem, / meus dentes beijam, / minha pele te veste / e ficas ainda mais despida. // Pudesse eu ser tu / E em tua saudade ser a minha própria espera. // Mas eu deito-me em teu leito / Quando apenas queria dormir em ti. // E sonho-te / Quando ansiava ser um sonho teu. // E levito, voo de semente, / para em mim mesmo te plantar / menos que flor: simples perfume, / lembrança de pétala sem chão onde tombar. // Teus olhos inundando os meus / e a minha vida, já sem leito, / vai galgando margens / até tudo ser mar. / Esse mar que só há depois do mar. (...). Mente o tempo: / a idade que tenho / só se mede por infinitos. // Pois eu não vivo por extenso. // Apenas fui a Vida / em relampejo do incenso. // Quando me acendi / foi nas abreviaturas do imenso. (...) cruzo as mãos / sobre as montanhas / um rio esvai-se // ao fogo do gesto / que inflamo // a lua eleva-se / na tua fronte / enquanto tateias a pedra / até ser flor (...). Esse que em mim envelhece / assomou ao espelho / a tentar mostrar que sou eu. // Os outros de mim, / fingindo desconhecer a imagem, / deixaram-me a sós, perplexo, / com meu súbito reflexo. // A idade é isto: o peso da luz / com que nos vemos. (...). No oculto do ventre, / o feto se explica como o Homem: / em si mesmo enrolado / para caber no que ainda vai ser. // Corpo ansiando ser barco, / água sonhando dormir, / colo em si mesmo encontrado. // Na espiral do feto, / o novelo do afeto / ensaia o seu primeiro infinito. (...). Foi para ti / que desfolhei a chuva / para ti soltei o perfume da terra / toquei no nada / e para ti foi tudo // Para ti criei todas as palavras / e todas me faltaram / no minuto em que talhei / o sabor do sempre // Para ti dei voz / às minhas mãos / abri os gomos do tempo / assaltei o mundo / e pensei que tudo estava em nós / nesse doce engano / de tudo sermos donos / sem nada termos / simplesmente porque era de noite / e não dormíamos / eu descia em teu peito / para me procurar / e antes que a escuridão / nos cingisse a cintura / ficávamos nos olhos / vivendo de um só / amando de uma só vida (Mia Couto – o “tradutor de chuvas”).
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