sábado, 17 de junho de 2017

terça-feira, 30 de maio de 2017

TRIPLO V (PORTUGAL)


A quem interessar possa, aqui uma seleta de poemas do meu último livro de poemas, "Máquina de fazer mar" (2016, 7Letras), que saiu agora no número 67 da revista virtual portuguesa Triplo V. Já havia publicado por lá em 2011 uma seleção de poemas meus na edição 11. Sempre bom ter leitores em terras "estrangeiras". Aqui, o link:  http://www.triplov.com/novaserie.revista/numero_65/augusto_cavalcanti/index.html

Aqui, o outro link para a seleção de 2011, que contêm poemas dos meus 2 primeiros livros: "Poemas para se ler ao meio-dia" (2006,7Letras) e "Os tigres cravaram as garras no horizonte" (2010, Circuito): http://www.triplov.org/poesia/augusto_cavalcanti/poemas/index.htm

sexta-feira, 26 de maio de 2017

Trabalhas sem alegria para um mundo caduco,
onde as formas e as ações não encerram nenhum exemplo.
Praticas laboriosamente os gestos universais,
sentes calor e frio, falta de dinheiro, fome e desejo sexual.
Heróis enchem os parques da cidade em que te arrastas,
e preconizam a virtude, a renúncia, o sangue-frio, a concepção.
À noite, se neblina, abrem guarda-chuvas de bronze
ou se recolhem aos volumes de sinistras bibliotecas.
Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra
e sabes que, dormindo, os problemas te dispensam de morrer.
Mas o terrível despertar prova a existência da Grande Máquina
e te repõe, pequenino, em face de indecifráveis palmeiras.
Caminhas entre mortos e com eles conversas
sobre coisas do tempo futuro e negócios do espírito.
A literatura estragou tuas melhores horas de amor.
Ao telefone perdeste muito, muitíssimo tempo de semear.
Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua derrota
e adiar para outro século a felicidade coletiva.
Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição
porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan.

"Elegia 1938" (CDA)

quinta-feira, 25 de maio de 2017


O Caos nunca morreu. Bloco intacto e primordial, único monstro digno de adoração, inerte e espontâneo, mais ultravioleta do que qualquer mitologia (como as sombras à Babilônia), a original e indiferenciada unidade-do-ser ainda resplandece, imperturbável como as flâmulas negras frenética e perpetuamente embriagada dos Assassinos (Hassasin ou Hassisin; ‘consumidores de haxixe’). O caos é anterior a todos os princípios de ordem e entropia, não é nem um deus nem uma larva, seus desejos primais englobam e definem toda coreografia possível, todos éteres e flogísticos sem sentido algum: suas máscaras, como nuvens, são cristalizações da sua própria ausência de rosto. Tudo na natureza, inclusive a consciência, é perfeitamente real: não há absolutamente nada com o que se preocupar. As correntes da Lei não foram apenas quebradas, elas nunca existiram. Demônios nunca vigiaram as estrelas, o Império nunca começou, Eros nunca deixou a barba crescer. Não. Ouça, foi isso que aconteceu: eles mentiram, venderam-lhe ideias de bem e mal, infundiram-lhe a desconfiança de seu próprio corpo e a vergonha pela sua condição de profeta do caos, inventaram palavras de nojo para seu amor molecular, hipnotizaram-no com a falta de atenção, entediaram-no com a civilização e todas as suas emoções mesquinhas. Não há transformação, revolução, luta, caminho. Você já é o monarca de sua própria pele – sua liberdade inviolável espera ser completa apenas pelo amor de outros monarcas: uma política de sonho, urgente como o azul do céu. Para lograr abrir mão de todos os acentos e hesitações da história ilusória, é preciso evocar a economia de uma Idade da Pedra lendária – xamãs e não padres, bardos e não senhores, caçadores e não policiais, coletores paleoliticamente preguiçosos, gentis como sangue, que ficam nus para simbolizar algo ou se pintam como pássaros, equilibrados sobre a onda da presença explícita, o agora-sempre atemporal. [...] Avatares do caos agem com espiões, sabotadores, criminosos do amor louco, nem generosos nem egoístas, acessíveis como crianças, semelhantes a bárbaros, perseguidos por obsessões, desempregados, sexualmente perturbados, anjos terríveis, espelhos para a contemplação, olhos que lembram flores, piratas de todos os signos e sentidos. Aqui estamos, engatinhando pelas frestas entres as paredes da Igreja, do Estado, da Escola e da Empresa, todos os monolitos paranoicos. Arrancados da tribo pela nostalgia selvagem, escavamos em busca de mundos perdidos, bombas imaginárias. A última proeza possível é aquela que define a própria percepção, um invisível cordão de ouro que nos conecta: dança ilegal pelos corredores do tribunal.


[1]





[1] (Hakim-Bey, 2003: 5-6). 

terça-feira, 4 de abril de 2017

A quem interessar possa, aqui o link da auspiciosa resenha que saiu hoje sobre o "Máquina de fazer mar" escrita pelo Sérgio Tavares de "A nova crítica". Muito bom saber que ainda existe crítica séria no país, para além da efeméride dos jornais e não restrita ao claustro da área acadêmica https://anovacritica.wordpress.com/2017/04/03/e-a-cidade-que-nos-sonha/

domingo, 26 de março de 2017

Máquina de fazer mar – AGC – 2016, 7Letras


Sugar o açúcar e lhe devolver o sugar
Sugar o açúcar e lhe devolver o amargar
De sugar a sugar
Do açúcar ao sal do mar

























As cascas das palavras
O sol da largura de um pé humano

O mar aberto vigora em tudo o que brilha
– que sabe brilhar sem e para além das lantejoulas

São os cartazes que sustentam o ar
Um soco de sol no rosto de quem chove

Uma sombra líquida a nascer no oceano invertido de seu ventre
Mínimos silêncios demoram para se fazerem verbo

Alguns navios eram mesmo ancorados no espaço

Amantes inexatos flutuavam na água,
radiantes cadáveres fingidos se equilibravam
em mais um verão inventado;
dentro de uma voragem portátil a se navegar

Eram eles: arqueólogos do instante, argonautas
da falta, escafandristas
do presente, cosmonautas
do desejo

A mais abissal imensidão de um mar não encerraria
sua mais sólida profundeza:
seu precipício não mais pararia de se renovar;
o oceano não seria fim nem princípio,
era meio

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Acaba de ser publicado na Germina (Revista Contemporânea de Literatura & Arte) um poema meu chamado "A última ciência da noite", que escrevi em torno de "O poema contínuo", do poeta português Herberto Helder; segue aqui o link: http://www.germinaliteratura.com.br/2016/augusto_guimaraens_cavalcanti.htm