sexta-feira, 3 de junho de 2016

Sutra do Girassol

Hoje, dia 3 de junho, Allen Ginsberg faria 90 anos; aqui o seu "Sutra do Girassol":

Caminhei pela beira do cais de bananas e latarias e me sentei à sombra enorme de uma locomotiva da Southern Pacific para olhar o sol que se punha entre as colinas de casas como caixotes e chorar.
Jack Kerouac sentou-se a meu lado sobre um poste de ferro quebrado e enferrujado, companheiro, pensávamos os mesmos pensamentos da alma, chapados e de olhos tristes, cercados pelas retorcidas raízes de aço das árvores da maquinaria,
A água oleosa do rio refletia o rubro céu, o sol naufragava nos cumes dos últimos morros de Frisco, nenhum peixe nessas águas, nenhum ermitão nessas montanhas, só nós dois com nossos olhos embaçados e ressaca de velhos vagabundos à beira-rio, malandros cansados.
Olha o Girassol, disse ele, lá estava a sombra cinzenta e morta contra o céu, do tamanho de um homem, encostada ressecada no topo do montão de serragem velha– 
– Ergui-me encantado – meu primeiro girassol, recordações de Blake – minhas visões – Harlem
e infernos dos rios do Leste, pontes com o clangor dos Sanduíches Gordurosos de Joe, carrinhos de bebês mortos, negros pneus carecas largados lá, o poema do cais à beira-rio, preservativos & penicos, facas nada inoxidáveis de aço, só o lixo úmido e os artefatos de afiados gumes passando para o passado –
e o Girassol cinzento reclinado contra o crepúsculo, desoladamente rachado e ressecado pela fuligem e a fumaça e o pó de velhas locomotivas em seu olho – 
corola de turvas pontas retorcidas e partidas como uma coroa arrebentada, sementes roladas do seu rosto, boca em breve desdentada ao ar ensolarado, raios de sol se apagando na cabeça cabeluda como uma teia de fios secos,
folhas tesas como ramos presos ao tronco, gesto enraizado na serragem, pedaços de estuque caídos dos negros galhos, mosca morta na orelha,
Ímpia coisa velha destroçada, você, meu girassol, Ó minha alma, como então te amei!
A fuligem não era uma fuligem humana porém morte e locomotivas humanas,
toda essa roupagem de pó, esse véu de pele escurecida da estrada, essa fumaça da face, essa pálpebra de negra miséria, essa fuliginosa mão ou falo ou protuberância de algo artificial pior que a própria sujeira – industrial – moderna – toda a civilização maculando sua louca coroa dourada –
e todos esses torvos pensamentos de morte e olhos empoeirados do desamor e tocos e raízes retorcidas embaixo, dentro do seu montão de areia e serragem, notas falsas de borracha de dólar, pele de maquinaria, as entranhas e vísceras do carro que tosse e chora, as latas vazias e abandonadas com suas enferrujadas línguas de fora, o que mais poderia eu nomear, a cinza queimada de algum cigarro do caralho, bocetas dos carrinhos e os túrgidos seios dos carros, bundas gastas dos bancos e esfíncteres dos dínamos – todo esse
emaranhado nas suas raízes mumificadas – e você aí postado a minha frente ao sol poente, toda a sua glória em sua forma!
Beleza perfeita de um girassol! excelente existência perfeita de um adorável girassol! doce olho natural voltado para a lua nova “hip”, desperto vivaz e excitado respirando a dourada brisa da luz do sol poente!
Quantas moscas zumbiram a seu redor ignorando sua fuligem, enquanto você amaldiçoava os céus da ferrovia em sua alma em flor?
Pobre flor morta? Quando foi que você esqueceu que era uma flor? quando foi que você olhou para sua pele e resolveu que era uma suja e impotente locomotiva velha? o espectro da locomotiva? a sombra e vulto de uma outrora poderosa locomotiva americana louca?
Você nunca foi uma locomotiva, Girassol, você é um girassol!
E você, Locomotiva, você é uma locomotiva, não se esqueça!
E assim agarrei o duro esqueleto do girassol e o finquei a meu lado como um cetro,
e faço meu sermão para minha alma, e também para a alma de Jack e para quem mais quiser me escutar.
– Nós não somos nossa pele de sujeira, nós não somos nossa horrorosa locomotiva sem imagem empoeirada e arrebentada, por dentro somos todos girassóis maravilhosos, nós somos abençoados por nosso próprio sêmen & dourados corpos peludos e nus da realização crescendo dentro dos loucos girassóis negros e formais ao pôr do sol, espreitados por nossos olhos à sombra da louca locomotiva do cais na visão do poente de latadas e colinas de Frisco sentados ao anoitecer.

(Berkeley, 1955; tradução: Cláudio Willer)

sábado, 28 de maio de 2016

AmorÁfrica

O Homo Sapiens, este animal do delírio, surgiu na África. Quando o hominídeo resolveu saltar de seu ócio, eis que nosso enigma veio à luz. As quimeras científicas estavam certas. Enquanto isso, Campos de Carvalho brada: “Não me lembro de ter nascido. Meu registro de nascimento é um blefe. Sou tão velho quanto a África.” 
Do outro lado da ponte vem um africano politicamente ereto; seu canto anuncia o dia. Cores terrosas anunciam a cabeça da medusa de um paraíso decaído. A serpente também é africana. Somos todos africanos. Comemoram os cubanos de Miami e os africanos de Beverly Hills; as montanhas do embevecimento. Aplauso para eles e para elas. Amor à África; AmorÁfrica.
Enquanto os H. heidelbergensis/ H. neanderthalis se espalhavam pela Europa, uma nova linhagem de hominídeos se diferenciava na África de duzentas mil primaveras  atrás: o Homo sapiens sapiens. Enquanto uma linhagem se diferenciava em um local, outras poderiam ter surgido em outros. O Homo sapiens sapiens haveria possuído uma capacidade craniana extraordinária e sabia usar ferramentas mais cirúrgicas do que os demais. 

Acredita-se que os Homo sapiens sapiens, com suas plumas e pedras, saíram da África cerca de quarenta mil anos atrás e acabaram cromatizando a noite com seus pincéis atômicos. De qualquer modo, não se saberia se os neandertais foram mortos ou absorvidos pelos H. sapiens sapiens mas o fato é que eles desvaneceram há trinta e cinco mil auroras atrás. O resto é história, cidade, galáxia. De repente, estrelas descem do teto. Jardins sensoriais transbordam pela loucura expandida do dia a dia. Mas, qual o vermelho que saiu do ovo?

sábado, 19 de dezembro de 2015

Os cães latem dentro do peito da cidade com a força de mil demônios rendidos. Objetos esquecidos de suas envelhecidas utilidades agora adquirem outras atividades insuspeitas, como a coagulação de uma pequena queda, como um estranho diamante extraído e reluzido do carvão da linguagem que, por estar preso por um fio, ali e finalmente ali, adquirisse liberdade e brilho próprio.
Os pássaros e as coisas sem asas se reconciliam para além de qualquer moldura. Outros países mais do que reais tremulam nos mapas para além dos territórios partidos e das estruturas retorcidas das ilusões geográficas. Suspensa, a cidade se equilibra em outra entropia, como um caos finalmente liberto de sua função mais ingênua.
Aviões sem asas despencam de um céu dos mais luminosos. Com todos seus cães latindo dentro do peito, o museu do mundo não mais poderia ser trancafiado em cofres, sótãos, porões ou mapas. O museu do mundo não mais caberia dentro das arestas do poema. Escandalosas paredes translucidas cobrem o dia e nossos sonhos são cobertos por armações de veludo vermelho ou,mais raramente, de veludo azul. 




mais raramente, de veludo azul.

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Depois de meia-noite a América é Iracema de ressaca.Que Deus salve a América e a torta de maça. Dia e noite o Mc Donald’s hasteia sua bandeira norte-americana, contrariando as leis de seu país original que diz que somente nas instituições nacionais a bandeira estado-unidense pode tremular depois do pôr do sol. Mas talvez seja isso, talvez o Mc Donald’s esteja para muito além de qualquer pôr do sol. Talvez este seja o descontrole controlado de seu clown onipresente. Não é à toa que Ronald é fruto da televisão. A multidão solitária clama por esta intranquilidade instantânea. A ordem é que os clientes se emocionem antes de estacionar. Esta é a ciência do hambúrguer; procure pelos seus arcos dourados. Pense na América transmutada em Iracema. Depois de meia-noite a América é Iracema de ressaca.
Luzes e cores valorizam o espanto. A cidade agora é mero pano de fundo para este laboratório de metáforas visuais. Com seus sorrisos antissépticos os atendentes te oferecem simulacros de refrigerantes. Aquários humanos se transformam em grandes avenidas de brilho e de alegria. A fúria da máquina também é saber que também precisa reluzir a todo instante, como quem sempre tivesse que soltar espasmos pulsantes na obrigação de explodir seus pontos de exclamação por onde quer que se passe. Fundos luminosos defendem que o sucesso está no excesso. De que o ketchup utilizado pela empresa poderiam encher o lago Michigan, de que os bilhões de hambúrgueres vendidos poderiam cobrir por várias e várias vezes a distância da Terra à Lua. Este é o real sem avesso, de deriva em deriva; até os ossos. Para os americanos estar na imagem é existir. O país Marlboro está no ar.Depois de meia-noite a América é Iracema de ressaca. Que Deus salve a América e a torta de maça.



quinta-feira, 5 de novembro de 2015

THIS IS IT

Este é o Luto de um Maestro POP afogado em Morfina. O monstro expressionista FITZCARRALDO da ex-montanha sagrada de HOLLY WOOD...O Marketing-Epitáfio do andrógino das delicadezas forçadas. Máscara derretida pelos porões de chumbo dos anjos alienados na cidade transitória dos anjos terríveis. This is it.

O tédio é a doença mais moderna que há. Intensa como um véu vazante, anjo exterminador vazando milagres. Michael Jackson foi o último dândi da história, andrógino anjo exterminado pela multidão anônima, sangue pisado nos estilhaços da calçada da lama. Como um continente perdido na beira da casca de um ovo, M.J se auto-implode como um encenador de si próprio, this is it.

Se Oscar Wilde declarava que uma reforma na maneira de se vestir era muito mais importante do que a reforma da religião, o exibicionismo de Michael tinha um alvo certo: a dança. Nunca mais luvas de lantejoulas prateadas e casacos de remotas purpurinas douradas, nunca mais girassóis na lapela, nunca mais. Cidades são traçadas, mas os arquitetos regurgitam gotas de nuvem.

Michael, você se perdeu no deserto de fotos envelhecidas antes do tempo, só te resta agora esta saudade do futuro, this is it. Nada te salva te salvará dos estilhaços deste instantâneo instante, desta saudade de tudo que ainda se resta para viver. Heróis ainda apodrecem no vento de carne.

Pessoas abrem seus guarda-chuvas, mas a chuva não as guarda, o veneno que assalta é um mel vazando massacre , this is it. Os pés andam sozinhos. Agora já é tarde demais para se morrer.


quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Como conseguir falar sobre as mulheres búlgaras se, nem ao menos, sabemos a que horas do dia elas preferem existir? Tropeçamos como bêbados sobre a tela de nossas próprias percepções (e não paramos). Fomos expulsos do centro do Labirinto e estamos condenados a procurá-lo pelo mundo, como quem retirasse calmamente um livro do congelador. Neste ponto cego que é a vida, algumas búlgaras, ou possivelmente húngaras, nos chegam aqui mais oblíquas do que nunca para tentar nos acalmar. São elas: Nina Dobreva, Brigitta Bulgari, Zsa Zsa Gabor, Annina Brandel, e até mesmo a diva, deusa global, cantora, apresentadora, diretora, empresária, produtora cinematográfica e musical, a encantadora Cherilyn Sarkisian provinda da Armênia – país sem costa marítima – mais conhecida pela alcunha acanhada de CHER. Cada uma delas troca gesticulações pelo quadrante de um despertador, que soa sessenta segundos, cada minuto. Neste nó desvairado de desenganos tudo pode mudar de repente para quem observa o mistério búlgaro desde os primeiros contatos até as definitivas trocas de olhares.

Uma búlgara – quando existe – é sempre questionadora, conseguindo até se debater por meses a fio sobre conceitos que a humanidade trabalha há séculos. Aqui, no parágrafo ZERO da escrita, os limites palpáveis deste país talvez sejam determinados como consequência da permanência de uma diáspora de nenhumidade. Seria quase impensável ver uma búlgara arruinada em seus próprios nervos; muito excepcionalmente ela te responderá com alguma nitidez. Isto pode ser comprovado na simpática entrevista da atriz hollywoodiana Nina Dobreva, titulada “Tenho orgulho de ser búlgara!”. Assim a aprendiz de vampira Dobreva cita sua adorada terra: “Meu lugar preferido lá é o Mar Negro, mas como tenho trabalhado durante os verões, não vou lá faz anos! Todos que me conhecem sabem que sou Búlgara e que tenho orgulho disso. Eu falo Búlgaro com a minha família, e quando meus amigos me ouvem falando, dizem: Nossa, você fala outra língua, isso é muito legal!”.

Os fios búlgaros dos cabelos das búlgaras podem facilmente sufocar quem por eles resolver se emaranhar. A atriz Joy Page, por exemplo, que interpretou a mulher búlgara recém-casada Annina Brandel no romance Casablanca (1942) – nascendo intermitentemente para o cinema – morreu em Los Angeles, cidade dos anjos norte-americanos, aos 83 anos, mas antes disso enrolou e entrelaçou muitos homens antes de se deitar para sempre em berço esplêndido. Ela só desejava que os rios de Sófia a levassem até os mares mais mortos que pudessem existir. Já a atriz Zsa Zsa Gabor, protagonista de Moulin Rouge, com sua “origem” húngara ou possivelmente búlgara, completará 94 anos no dia 6 de fevereiro, com seus belos coágulos de carne expostos miraculosamente ao sol. –“Tudo como era dantes no quartel de Abrantes, muita estrela pra pouca constelação. Depois de nós, só o dilúvio!”, é o que dizem os professores doutores Velichko Velikov e Nikola Orloev, que nos contam sobre outra ocorrência enigmática chamada Brigitta Bulgari. Agora vamos aos “fatos”.

Um cemitério na cidade movediça de Podvodka – situada na fronteira com a pálida menina chamada Grécia – quer demolir o túmulo da voluptuosa atriz Brigitta Bulgari, conhecida na indústria pornográfica como Sexy Wosnitza. O motivo: o túmulo seria muito sexy e estaria tumultuando o lugar. Curiosos querem ver a construção, enquanto visitantes de parentes mortos se sentem ofendidos. Brigitta Bulgari “morreu” em janeiro passado, aos 23 anos, após complicações em uma cirurgia para aumentar o silicone nos seios de 750 para 900 ml. O túmulo da atriz, construído por seu viúvo, Ivan Wosnitza, custou cerca de U$$ 40 mil e inclui fotos dela, além da estátua de um anjo. Diante da repercussão, o viúvo planeja contratar seguranças particulares para garantir que o túmulo não seja demolido. “Ela era uma mulher bonita, não entendo como isso pode ser ofensivo”, ele disse a um jornal local. Ela era uma estrela premiada, modelo, ex-Big Brother, e já tinha sido hospitalizada em 2009 durante uma tentativa de bater o recorde mundial de sexo oral em 24 horas. A “atriz” pretendia conversar com 200 homens, mas desistiu após o número 75 por se sentir levemente indisposta.

Em Sófia qualquer beco ou cruzamento sombrio de prédios atados por alfinetes pode ser um raio de sol. Se existir a Bulgária, pode ser hoje o dia de seus fios desencapados, agora a hora de palitar os dentes com milhares de volts. Vestidos de nudez diariamente os habitantes de Sófia abotoam suas camisas que pesam feito chumbo e saem de seus prédios (dinossauros de cimento) rumo ao que chamam de avenida pulsante; esta é uma de suas maiores aventuras: Aceitar e esquadrinhar o congestionamento de todo santo e venerável dia, incansável feito uma dívida que não tem hora para terminar. Mas até mesmo que a Bulgária não “exista”, mesmo assim, os jornais sairão quentinhos de qualquer banca de jornal. Os profetas do acontecido sempre hão de triunfar.

Do lado de fora do aquário, o passado de Sófia vai se escrevendo nos ângulos de suas autopistas e no arranhar de suas janelas. De alguma maneira Sófia permanecerá com suas lendas sobre sua origem frágil. Geralmente cada canção tradicional deste país é entoada em ritmo único e bailada ao ritmo seco dos gritos que se desdobram pelas suas fronteiras; não necessariamente humanas, mas invariavelmente búlgaras. Sófia rascunhada nos rasgos rasgados das brechas inundadas, nos cantos das fendas, nos rápidos restabelecimentos das suas máquinas de poeira; ali onde Sófia constrói o futuro sobre sua tradição, ao redor do famoso “Vale das Lágrimas dos Futuros Velhos”; ali existem elevações e planícies aéreas que circundam toda a costa do Mar Morto e de seu principal rio, o Danúbio, ao norte. Fora dos aquários do que já morreu e se esqueceu de deitar; o futuro dura muito tempo.

Um filósofo, supostamente búlgaro, opositor dos mais aclamados bulgarólogos, nos disse certa vez que tudo o que jaz no inferno das bibliotecas viria a lume na alta cidade crepuscular de Sófia. No escuro da entrega as flores também submergiriam deste vazio. Muitos são os que defendem a tese que Sófia é uma cidade palpável demais para ser real. Suas pavimentações se assemelhariam a meteoros e despenhadeiros, suas profundidades de tão planas carregariam uma cidade portátil. Seriam seus edifícios que sustentariam Sófia, como se esta dependesse (segundo a certeza de alguns ilustres astrobúlgaros) de pontes para se sustentar no espaço, pairando com suas áreas abertas nas linhas de uma levitação por onde as calçadas mais imediatas não conseguiriam alcançar.

Nos cenários de Sófia os mendicantes são as mais belas peças de decoração da maquete da cidade, ficam fabulosos no contraste plástico da pele com o asfalto, assim como púcaras ficam também as crianças búlgaras abandonadas portando púcaros, se abrigando nas marquises de deteriorados viadutos que talvez nem existam mais.

Nas cenas mais corriqueiras de Sófia – cidade deflorada – suas formas de vida são as mais modernas possíveis. Fabulosa é a epiderme das suas alamedas com seus bancos e estátuas reluzindo durante as tardes primaveris em que se é fácil perceber as diferenças entre os seus dois sóis – noturnos e diurnos. Lá onde toda forma de luz é um conflito, vagalumes são os poetas estudando o espaço. Cineastas se derretem pelos roteiros perturbadores que vão sendo construídos pelo pôr do sol do alto de Sófia. Anunciam os doutores que ou os búlgaros não existem, ou então somos nós os taciturnos. Pode ser que a hipótese mais verdadeira seja a outra: são eles que existem, nós não. Ou são os búlgaros inexistentes, ou os nãos nascidos somos nós. Talvez os médicos e os neurocirurgiões continuem a afirmar que o “estado búlgaro” não passe de uma tamanha inquietação, uma febre, uma suspensão momentânea da “razão”. Não dê ouvidos para eles. Escutar o que “eles” falam seria como pousar em cidades que nunca sairiam do papel. Como diria meu tetravô: “não me busqueis no texto, eu fui sonhado”.

[De "Fui à Bulgária procurar por Campos de Carvalho", 2012, 7Letras]


Já dizia 1 velho ditado búlgaro: "O homem que acha a sua pátria agradável não passa de um jovem principiante; aquele para quem todo solo é como o seu próprio já está forte; mas só é exato aquele para quem o mundo inteiro é como um país estrangeiro".
Não podemos mais invocar, para estender uma ponte entre continentes que se afastam tanto uns dos outros; quem constrói a ponte não conhece o lado de lá. O nadador não tem outra saída senão construir uma balsa com os ossos destes deuses e sobreviver. Na verdade, a linha que separa os países abstratos dos países ditos reais só pode ser traçado no útero de uma teoria selvagem, mas talvez este não seja um romance para as carpideiras de plantão e nem muito menos um romance refém da lógica dos territórios: os mapas também mentem, principalmente eles. É aqui onde um poeta exprimirá seu desejo de ser um rio, não um rio fechado em duas margens, mas um rio com seus cavalos selvagens. Como se suas ilhas se transformassem em arquipélagos e depois em continentes, aqui nos chega Campos de Carvalho a bradar: "Até um relógio parado tem razão duas vezes ao dia. Eu quero a liberdade tátil de uma criança".
É aqui onde um poeta exprimirá seu desejo de ser um rio, não um rio fechado em duas margens, mas um rio com seus cavalos mais selvagens. A solidão é um cartão postal. Quanto mais se vive, menos se morre.
Não podemos mais invocar, para estender uma ponte entre continentes que se afastam um do outro; quem constrói a ponte não conhece o lado de lá. Vivemos uma mudança permanente que dissolve os deuses como se fossem bancos de areia. O nadador não tem outra saída senão construir uma balsa com os ossos destes deuses e sobreviver. Na verdade, a linha que separa os países abstratos dos países ditos reais só pode ser traçado no útero de uma teoria, mas talvez este não seja um romance para as carpideiras de plantão e nem muito menos um romance refém da lógica dos territórios: os mapas também mentem. O homem que acha a sua pátria agradável não passa de um jovem principiante; aquele para quem todo solo é como o seu próprio já está forte; mas só é exato aquele para quem o mundo inteiro é como um país estrangeiro. Quanto mais se vive, menos se morre.
("Fui à Bulgária procurar por Campos de Carvalho", 2012, 7Letras)